Sabrina Noivas 117 - His Wild Young Bride
 
Nada era de verdade... apenas seu corao descompassado...Como tutor de Cassie Warrington, Blake Campbell devia salv-la de muitos perigos e de decises precipitadas a respeito do futuro.O famoso homem de negcios faria qualquer coisa para preservar a inocncia de sua protegida...Assim, quando Cassie anunciou que estaria disposta a desposar o 1 pretendente que aparecesse, Blake no teve outra alternativa seno apresentar-se como candidato...Esta seria a nica maneira de evitar que Cassie cometesse 1 tolice... e de esperar que ela algum dia tomasse conscincia de quanto estava sendo imprudente.Mas 1 cerimnia de casamento pedia 1 beijo, no final... e foi exatamente nesse momento que Blake, ao fitar Cassie nos olhos, compreendeu que estava numa sutil enrascada!

Digitalizao e correo: Nina

Publicao original: 2000. Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance contemporneo 
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2001

Srie Noivas Virgens (Virgin Brides)
Autor	Ttulo	Ebooks	Data
Palmer, Diana	The Princess Bride
Sab.Noivas 069 - H.Texas 17.1 - Tudo Por Um Beijo	Mar-1998August, Elizabeth	The Bride's Second Thought
Sab.Noivas 090 - Razes Do Corao	Apr-1998Broadrick, Annette	Unforgettable Bride
Sabrina 1044 - Um Amor Para Sempre	May-1998Carey, Suzanne	Sweet Bride of Revenge
	Jun-1998Steffen, Sandra	The Bounty Hunter's Bride
	Jul-1998Ferrarella, Marie	Suddenly... Marriage
Sab.Noivas 092 - De Repente...Casados!	Aug-1998Paige, Laurie	The Guardian's Bride
Sab.Noivas 100 - Planos Para Um Casamento	Sep-1998Christenberry, Judy	The Nine-Month Bride
BD 724 - Aconteceu o Amor!	Oct-1998James, Arlene	A Bride to Honor
Sab.Noivas 093 -Preldio de Amor	Nov-1998Longford, Lindsay	A Kiss, a Kid and a Mistletoe Bride
Sab.Noivas 113 - Beijo Roubado	Dec-1998Palmer, Diana	Callaghan's Bride
Julia 1129 -  H.Texas 19 - Irmos Hart 03 - As Estaes Do Amor	Mar-1999James, Arlene	Glass Slipper Bride
	Jul-1999Grace, Carol	Married to the Sheik
BD 726 - Casada Com Um Sheik	Sep-1999Shields, Martha	The Princess and the Cowboy
Sab.Noivas 114 - A Princesa e o Caubi	Nov-1999Bagwell, Stella	The Bridal Bargain
BD 741.1 - Selado Com Um Beijo	Jan-2000Cassidy, Carla	Waiting for the Wedding
Sab.Noivas 110 - Meu Primeiro Amor	Feb-2000Clayton, Donna	His Wild Young Bride
Sab.Noivas 117 - Corao Selvagem	Apr-2000Colter, Cara	First Time, Forever
Julia PP 033 - Conto De Fada Existe	Aug-2000Grace, Carol	Fit for a Sheik
Julia 1131 - Sob Medida Para o Sheik
	Feb-2001Wallington, Vivienne	Claiming His Bride
Sab.Noivas 120 - Um Segredo Entre Ns	Apr-2001Bright, Laurey	Marrying Marcus
Sab.Noivas 139 - Eu Sei Que Vou Te Amar	Dec-2001Bright, Laurey	The Heiress Bride
Sab.Noivas 138 - Casamento de Princesa	Mar-2002Smith, Karen Rose	The Marriage Clause
	May-2002
         
         




























CAPITULO I

Acho que j  tempo de me tornar lulher... de perder minha virgindade  disse Cassie.
Blake Campbell empalideceu. De todas as surpresas que tivera naquele dia, essa era a mais absurda. Fazendo um intenso esforo para no demonstrar o quanto estava chocado, ele tentou raciocinar rpido. No que no soubesse o que dizer. Ao contrrio, tinha uma resposta na ponta da lngua.
Mas j fazia trs anos que fora nomeado tutor de Cassie Warrington. E, com isso, aprendera vrias lies, como por exemplo no argumentar de maneira radical com ela. Afinal, Cassie era persistente e teimosa. Bastava que algum discordasse de seus pontos de vista para que ela se tornasse intransigente e irredutvel em suas opinies.
Quantas vezes ele j discutira com Cassie, at por assuntos corriqueiros. O resultado era sempre o mesmo: quanto mais ele insistia num ponto, mais Cassie se tornava obstinada.
Entretanto, quando conseguia contemporizar, ambos chegavam a um acordo. E era exatamente isso que ele precisava fazer naquele momento... Ainda que estivesse atnito.
"Ou ser que estou fazendo uma tempestade em copo de gua?", ele se perguntou.
Afinal, talvez Cassie no estivesse falando srio. Talvez quisesse apenas gracejar... Ou provoc-lo.
De qualquer modo, era melhor certificar-se de suas verdadeiras intenes, Blake decidiu, observando-a com ateno. Cassie tinha uma expresso altiva, determinada. E isso significava perigo.
Seus cabelos lisos caam-lhe abaixo dos ombros como uma reluzente cascata cor de bano. Os olhos, azuis como o cu daquela primavera, demonstravam firmeza, e tinham um qu de desafio. O rosto de traos delicados parecia mais corado do que de costume. Os lbios sensuais estavam um tanto contrados, o nariz levemente arrebitado... Tudo isso era sinal de que Cassie no estava nada disposta a abrir mo do que acabara de dizer.
E como a confirmar essa constatao, ela prosseguiu:
	Vou completar vinte e um anos no prximo ms. Isso significa que serei adulta e emancipada, para cuidar de minha prpria vida, sem interferncia de ningum.
A nfase com que Cassie pronunciou a ltima palavra da frase no deixava dvidas do que ela queria dizer...
"Est se referindo a mim", Blake concluiu, engolindo em seco. "Est protestando contra os conselhos e orientao que eu, como seu tutor, tenho todo o direito de dar. Alis, no apenas o direito, mas tambm o dever."
Usando jeans, tnis e uma camiseta azul-turquesa, estilo regata, Cassie no demonstrava os vinte anos que possua. Parecia ainda uma adolescente, sobretudo porque possua duas caractersticas prprias dessa fase da vida: era bela, vibrante e... rebelde. Terrivelmente rebelde.
Blake suspirou. Fazia algum tempo que j no conseguia ver Cassie apenas como uma irm mais jovem que necessitava de carinho, ateno e, ocasionalmente, alguns puxes de orelha. Ao contrrio do que lhe ordenava a sensatez, muitas vezes flagrava-se olhando Cassie como... mulher. A mais bela, encantadora e instigante mulher que j conhecera, depois de Catherine.
Com um leve meneio de cabea, Blake afastou esse pensamento perturbador. No queria divagar sobre aquele assunto, nem tampouco lembrar-se da ex-mulher, que tanto sofrimento lhe causara, no passado.
	Voc j se perguntou quantas virgens de vinte e um anos existem, na costa leste americana?  A voz de Cassie interrompeu-lhe as consideraes.
"No responda", Blake ordenou-se, em pensamento. Era hora de manter a calma, de no ceder  tentao de discutir.
Voltando-se para dentro de si mesmo, Blake descobriu-se num terrvel estado de confuso. Sempre se sentira impelido a proteger Cassie dos perigos do mundo. Essa vontade nascera-lhe no ntimo desde a primeira vez em que a vira. Na poca, ela era apenas uma garotinha, linda, travessa, encantadora e doce.
Entretanto, esse sentimento no impedia que seu corao lhe pregasse peas... Que vez por outra pulsasse ao compasso de um desejo contra o qual era impossvel lutar.
"J chega", Blake decidiu, mentalmente. Estava estressado havia meses, devido ao trabalho intenso na empresa. Se no fosse por isso, no estaria pensando em tolices.
Apesar do cansao, porm, mantinha seus encontros semanais com Cassie, que visitava-o s quartas-feiras, na empresa. Assim, ambos conversavam.
Era verdade que s vezes Blake sentia-se to exausto, devido ao ritmo intenso de trabalho, que custava a concentrar-se nos assuntos que tratava com Cassie. Mas isso no significava falta de carinho, ou considerao. Na verdade, ele seria capaz de abrir mo de qualquer compromisso, para ouvi-la falar sobre seu dia-a-dia, os estudos, os amigos e os planos para o futuro.
Amigos!, Blake pensou com desgosto.
Talvez as ms companhias fossem responsveis por aquela deciso absurda de Cassie. Afinal, aos vinte anos, uma pessoa poderia sofrer terrveis influncias de pretensos "amigos". Ingnua, ignorando a crueldade que havia no mundo, Cassie no era muito difcil de ser iludida, ou trapaceada. Nos dias atuais, a questo sexual era um assunto bastante delicado, para se dizer o mnimo.
De sbito, um sentimento de alvio invadiu Blake. O fato de Cassie ainda ser virgem significava que ela soubera se guardar... ao menos at o presente momento. De onde teria tirado a ideia de que sua virgindade era um estorvo? Certamente algum a havia convencido disso.
Fitando-a com um misto de ternura e apreenso, ele afirmou:
 Escute, querida, o fato de voc ser uma garota inexperiente no deve ser encarado de maneira negativa. Ao contrrio.
O sorriso irnico de Cassie o fez interromper-se. Mas logo Blake recuperou-se:
	Sei que perteno a um gerao diferente da sua. Afinal, sou quase quatorze anos mais velho do que voc. Mas  justamente por isso que tenho mais experincia e...
	Oh, sim  ela aparteou, com ar zombeteiro.
	Voc j fez trinta e quatro e eu vou completar vinte e um. E isso faz com que voc se sinta tentado a bancar o Matusalm, certo?
Blake meneou a cabea, contrariado. Cassie sempre o chamava assim, quando ele lhe dava conselhos.
- O momento no  adequado a brincadeiras  Blake sentenciou, num tom severo.
	Gostaria que voc me ouvisse com mais seriedade. O fato de estar intocada como uma herona de romances do sculo passado  preocupante  ela completou, com um sorriso desafiador.  Todas as minhas amigas j tiveram experincia sexual, sabe?
	No estou interessado na vida delas, mas na sua  Blake retrucou, impaciente, enquanto suas suspeitas se confirmavam. Tinham sido, de fato, as ms companhias que haviam influenciado Cassie naquela estpida deciso.  Sei que voc detesta conselhos, mas vou dar-lhe um, mesmo assim: no deixe que pretensos "amigos" a levem a atitudes das quais se arrepender mais tarde.
	Oh, Blake!  Cassie riu, divertida, inclinando a cabea para trs.  Voc  to dramtico, s vezes!
	E voc  to inconsequente, minha criana.
	No sou mais uma criana e sim um adulto, capaz de dirigir a prpria vida  ela afirmou, de sbito muito sria.
	Voc sabe muito bem que este  apenas um modo carinhoso de trat-la, que uso h muito tempo  Blake defendeu-se.
	Sim, querido  Cassie assentiu, com ar condescendente.  S que os anos passaram e eu cresci. Deixei de ser sua doce garotinha, para transformar-me numa... pessoa.
 Cassie preferiria dizer: numa mulher. Mas teve medo que a voz lhe soasse trmula, denunciando o misto de mgoa e decepo que sentia por Blake. Bem, no exatamente por Blake, mas pelo fato de ele insistir em v-la como uma menina. E finalizou:  Seria melhor se voc tomasse conscincia disso, de uma vez por todas.
"Se voc quer ser tratada como uma pessoa adulta, ento pare de defender essas ideias sem p nem cabea, a respeito de sexo", Blake quase retrucou.
Mas conteve-se a tempo, pois de nada adiantaria discutir com Cassie.
	Alm do mais, minhas amigas no sabem que ainda sou virgem  ela continuou.  Eu morreria de vergonha, se tivesse de confessar-lhes essa verdade... constrangedora.
	Por que constrangedora?  Blake argumentou.  J lhe disse que no h nada de errado nisso.
	O problema no  este.
	Ento, qual ?
	O fato  que preciso viver e...
	J entendi  Blake apartou, lutando para no perder o controle.  Seu ltimo namorado encheu-lhe a cabea de  tolices, no ? Certamente ridicularizou-a, s porque voc se recusou a ...
	Oh, l vem voc, fazendo drama novamente  Cassie queixou-se, com um profundo suspiro.  Se rompi com meu ltimo namorado, foi apenas porque descobri que no tnhamos muitas afinidades. E no porque ele houvesse me pressionado, ou algo assim.
	E agora?  Blake indagou, apreensivo.
	Agora... o qu?
	Voc tem sado com algum rapaz, ultimamente?
	Claro que no. Afinal, rompi com Lester h menos de dois meses. E ainda no tive tempo de conhecer ningum interessante.
"Na verdade..." Cassie acrescentou, em pensamento, "estou diante do homem mais incrvel, charmoso e brilhante que j vi em minha vida. S que no represento nada, para ele."
Uma nuvem de tristeza a invadiu. Se tivesse coragem de confessar seus verdadeiros sentimentos a Blake! Mas isso estava fora de cogitao... ao menos por enquanto.
	A nica pessoa com quem tenho conversado  voc  Cassie declarou, aps alguns instantes de tenso silncio.
Blake franziu a testa, com ar confuso. Por que Cassie resolvera tratar daquele assunto, to delicado, justamente com ele?
Bem, como seu tutor e guardio, ele tinha o dever de ouvi-la e aconselh-la.
A me de Cassie falecera ao dar  luz. E, o pai, trs anos atrs. Mas talvez a bondosa Olive pudesse ajud-la, Blake pensou. Afinal, tratava-se de uma mulher vivida, experiente, por quem Cassie nutria especial afeio.
Olive e seu marido, Alexander Masterson, trabalhavam na
manso Warrington, desde antes do nascimento de Cassie.
Ambos haviam ajudado a cri-la, com muito amor e carinho.	
Quando o velho Henry Warrington morrera, Blake pedira a ambos que continuassem na manso, para prestar assistncia a Cassie. E os dois haviam concordado, mesmo porque consideravam a manso como seu prprio lar.
Na poca, Cassie era menor de idade. O velho Henry Warrington deixara firmado, em testamento, o desejo de que Blake fosse nomeado tutor de Cassie, alm de procurador dos bens da famlia. E o tribunal de Heaven City acatara sua deciso.
Para Blake, era um alvio saber que o casal Masterson cuidava de Cassie, com infinita dedicao. Ele, por sua vez, encarregava-se de administrar o patrimnio da famlia e de dirigir a Warrington Construction, uma empresa especializada em arquitetura, fundada muitos anos atrs, pelo saudoso Henry Warrington, pai de Cassie.
Blake trabalhara durante muito tempo como assessor di-reto de Henry Warrington e conhecia profundamente a estrutura da empresa. Isso, sem contar a alta estima que tinha pelo velho Henry, a quem considerava como um segundo pai. Sua partida deixara-lhe um terrvel vazio.
Mas a vida tinha de continuar. E fora com essa ideia em mente que Blake vencera a dor causada pela morte daquele grande amigo, que to bem soubera compreend-lo em momentos difceis. E que tanto o estimulara a crescer, a proje-tar-se como arquiteto, a desenvolver uma carreira brilhante.    
 Em que planeta voc est, Blake?  A pergunta de Cassie interrompeu-lhe as recordaes.
	Como?  ele indagou, piscando os olhos, obrigando-se a voltar ao momento presente.
	Voc parece to... distante.
	Estava apenas pensando  ele justificou-se, antes de recomendar:  Talvez voc devesse conversar sobre esse assunto com Olive.  Prevendo a reao de Cassie, acrescentou:  Afinal, ela  uma mulher experiente. E com certeza compreender a maneira como voc est se sentindo, com relao a sua...
	Virgindade  Cassie completou.
	Isso.
Cassie espreguiou-se, com a languidez de uma gata, ao responder:
	Voc  um homem to brilhante, Blake. E, no entanto, s vezes no consegue entender as coisas mais simples dessa vida.
	Como assim?
	No compreende, por exemplo, que Olive, apesar de ser um amor de pessoa, tem sessenta e um anos de idade.
	E da?
	Da que ela passou toda sua vida dedicando-se  famlia Warrington... E especialmente a mim. Claro que no existe nada de errado, nisso. Na verdade, admiro Olive e seu desprendimento. Amo-a, tanto quanto a Alexander. E voc sabe disso muito bem.  Cassie fez uma pausa.  Mas no creio que seja uma boa ideia falar com Olive sobre esse assunto.
Blake ergueu as sobrancelhas, com uma expresso de dvida. E Cassie insistiu:
	Tenho certeza de que ela no me compreenderia.
	Por que no?
	Porque sou como uma neta, para ela e Alexander.  Um sorriso insinuou-se nos lbios sensuais de Cassie.  E imagine, meu caro Blake, se uma neta chegasse para a av e dissesse, com a maior naturalidade do mundo: "Sabe, vov, estou pensando em ter uma experincia sexual..."  Agora Cassie ria.  Imagine a reao da pobre senhora!
	Isto, eu posso imaginar perfeitamente  Blake declarou, com amarga ironia. Pois tambm estava terrivelmente desconcertado... No como uma av ficaria, claro. Mas, decididamente, no sabia o que dizer, nem como agir. O fato era que precisava se posicionar, tirar aquela ideia absurda da mente de Cassie, a qualquer custo. Num tom cauteloso, aconselhou:  Escute, querida, voc no acha que est sendo um tanto... precipitada?
	Como assim?  Ela franziu o cenho.
	No seria melhor esperar?  ele ponderou.  Afinal, a relao ntima entre um homem e uma mulher... Quero dizer, o ato de amar  algo... especial.
	E quem falou em amor?  Cassie retrucou, com uma tranquilidade surpreendente.
	Ora, voc mesma acabou de dizer que...
	Eu falei em sexo, Blake.
	No  possvel que esteja separando uma coisa da outra!  ele exclamou, chocado.
	E por que no?
	Porque isso me soa... cruel.
	Ora, no seja infantil, querido.  Cassie desatou a rir, como se tivesse ouvido algo incrivelmente cmico.
Blake perdeu a pacincia.
	No acredito no que estou ouvindo!  exclamou, atnito.  Isso deve ser um sonho, ou melhor: um terrvel pesadelo.
	Por qu?  ela indagou, com ar inocente.
	A Cassie Warrington que conheo jamais diria palavras to duras, to desprovidas de sentimentos.
	Blake Campbell, em que sculo voc vive, afinal? Acha, realmente, que as pessoas vo para a cama juntas s quando esto apaixonadas?
	E existe outro motivo?
	Vrios  ela respondeu, num tom displicente.  As pessoas s vezes fazem amor movidas por simples atrao, ou curiosidade. Isso sem contar a solido, ou o tdio, que sem dvida podem levar  loucura.
	Pare, Cassie!  ele ordenou, arregalando os olhos castanhos, numa expresso de perplexidade. - Se voc queria me escandalizar, j conseguiu. Portanto, pode baixar as armas.
Ela sorriu, com ar superior, antes de retrucar:
	Ora, no diga bobagens, Blake. Voc acha, realmente, que eu teria todo esse trabalho, s para provoc-lo?
	Voc no pode estar falando srio  ele murmurou, como se pensasse em voz alta.
	Oh, j basta de lamentaes. Se voc no ficasse to chocado com minhas ideias, veria que elas so absoluta
mente sensatas e... normais.
	O que h de sensato no fato de uma garota de vinte anos decidir se deitar com o primeiro homem que aparecer? S mesmo se eu fosse absolutamente insensvel, para no me chocar com tamanho absurdo.
	Para incio de conversa, eu no disse que iria me deitar com...
	Oh, claro que no!  Blake a interrompeu, exasperado.
 Voc disse fazer sexo, o que alis d no mesmo.
Fitando-o com ironia, ela comentou:
	Vejo que est muito preocupado com o aspecto moral da situao, sr. Blake Campbell.
	E no deveria?  Ele encarou-a duramente, enquanto passava a mo nos cabelos negros, num gesto de angstia e cansao.
	Lgico que no  Cassie respondeu, com simplicidade.
Afinal, eu no vou me entregar assim, sem mais nem menos, ao primeiro pretendente que surgir em meu caminho.  E diante da expresso de alvio de Blake, finalizou:  Na verdade, vou despos-lo, antes de qualquer contato mais ntimo.
	Despos-lo?  Blake repetiu,  beira do desespero.
	Sim  Cassie confirmou, com um sorriso maroto.  Quero ter minha primeira experincia sexual, sim. Mas no tenho a menor inteno de destruir a imagem respeitvel da famlia Warrington. Por esse motivo, vou me casar primeiro. Assim, continuarei sendo uma boa menina, a seus olhos e aos de quem mais possa interessar.
	Cassie Warrington!  Blake repreendeu-a, no auge da perplexidade.  Voc perdeu o juzo?
	No, meu querido. Para ser franca, sinto-me em pleno domnio de minhas faculdades mentais... E tambm fsicas,  claro  acrescentou, num tom sarcstico.
	No adianta.  Blake meneou a cabea.  Essa ideia maluca a deixou obcecada. E nada do que eu disser poder demov-la.  Ele fez uma pausa.  Voc est se esquecendo do verdadeiro sentido do amor, sabia? E este  um sentimento que voc conhece desde a infncia, pois sempre foi muito querida, tanto por seu pai, quanto pelos Masterson...
	E quanto a voc?  Ela o fitou, no fundo dos olhos.
	O que quer dizer?
	Estou lhe perguntando se voc tambm gosta de mim, seu bobo.
	Mas  lgico que sim. E voc sabe disso muito bem.
	E que voc s vezes se esquece de dizer.
	Acha que  preciso? No demonstro a alta estima que lhe tenho, a todo momento?
	Sim, claro... Quando lhe sobra tempo para faz-lo.
Afinal, voc  um homem to ocupado, no?
	A Warrington Construction necessita de mim.  Blake fez um gesto amplo, que parecia abranger toda a sala onde ambos se encontravam.
Estavam em seu escritrio particular, no sexto andar de um edifcio luxuoso, ocupado inteiramente pela empresa. O prdio ficava no Centro Comercial de Heaven City. Era ali que Blake recebia Cassie, todas as quartas-feiras, para o encontro semanal.
A sala era decorada com sofisticao e bom gosto. O tom bege predominava, nas cortinas, tapetes e estofados.
	Voc no deveria estar agindo assim  disse Blake, aps um longo momento.  No imagina o quanto est me ofendendo, com essa atitude maluca e sem sentido.
	Ainda no comecei a agir, querido  ela o provocou.
 Por enquanto, estou apenas anunciando uma deciso, que alis s transformarei em ao no prximo ms, depois de completar vinte e um anos.
Puxando uma cadeira estofada para perto de Cassie, ele tomou-lhe a mo.
	Escute, querida, eu no quero discutir com voc. Mesmo porque, sei que seria intil. Nunca chegamos a um acordo, quando entramos em choque. Portanto,  melhor que sejamos mais compreensivos... Certo?
	Tudo bem  ela assentiu, com ar de expectativa.  O que tem a me dizer, Blake?
	Quero lhe fazer um pedido.
	Qual?
	Reconsidere sua deciso.
	Impossvel.
	Escute, por favor...
	Fale, Blake.
	Voc nunca sonhou em encontrar seu Prncipe Encantado, sua alma gmea? Nunca pensou que algum dia seu c aminho se cruzar com o de algum que a apoiar durante a vida inteira, dividindo os momentos belos e difceis, construindo um mundo novo a seu lado?
Cassie ficou em silncio por alguns instantes, como se refletisse sobre o que acabava de ouvir.
Uma centelha de esperana brilhou nos olhos de Blake. Talvez estivesse conseguindo, enfim, um caminho de acesso para a mente de Cassie, ele pensou, tomado por um sbito entusiasmo.
	Voc j sonhou com tudo isso, algum dia?  ela perguntou, fitando-o no fundo dos olhos.
	Claro que sim. Todas as pessoas de bons sentimentos acalentam esses anseios.
	E em que resultou seu belo sonho?  A voz de Cassie denotava amargura e ironia.  Voc era um homem romntico, no  mesmo? Um dia seu caminho cruzou-se com o de Catherine, por quem alis voc ficou perdidamente apaixonado. Tanto, que em pouco tempo casou-se com ela.
Blake retesou-se na cadeira. Quis dizer algo, mas Cassie continuou:
	Catherine tambm parecia louca por voc. E de que adiantou tudo isso? Ela o magoou profundamente e, no fim das contas, vocs se divorciaram.  Estreitando os olhos azuis, Cassie acrescentou:  E  em nome desse amor voc vem me questionar, Blake Campbell?
	No lhe dou o direito de me interrogar dessa maneira  ele reagiu, entre ofendido e irritado.  O fracasso de  minha vida com Catherine no significa que todos os casais que se amam estejam condenados ao mesmo destino.
	E quantos casais realmente felizes voc conhece?  Cassie o desafiou, cruzando os braos.
	Vrios.
	Cite-me apenas um.
	Olive e Alexander, por exemplo.
	Oh, eles no contam.
	Por que no?
	Porque so como anjos. So incrivelmente bondosos e simples, por natureza. Mas configuram uma rarssima exceo. A maioria das pessoas romnticas de nosso tempo acabam descobrindo que a realidade  bem diferente dos sonhos. E que, muitas vezes, os maiores idlios terminam em divrcio, tdio, ou tragdia. O que de fato conta  viver intensamente, desfrutar o que h de bom neste mundo.
	Amar algum , talvez, o modo mais sbio de desfrutar o verdadeiro sentido da vida  Blake declarou.  E, a propsito, acabo de me lembrar de outra rarssima exceo como voc mesma diz: seus pais tambm foram muito felizes e voc sabe disso muito bem.
	Nunca presenciei a felicidade deles, pois mame morreu ao me dar  luz.
	Mas voc ouviu, muitas vezes, seu pai falar sobre o grande amor que devotava  sua me, que alis correspondia intensamente.  Blake ergueu o queixo, numa expresso altiva.  Como voc v, Cassie, j me lembrei de dois casais felizes. E agora? Voc vai continuar afirmando que o amor no existe, ou que est fadado ao fracasso? E, assim, arranjar uma bela desculpa para cometer a maior tolice de sua vida?
Os olhos azuis de Cassie estreitaram-se, numa expresso agressiva.
Blake conhecia muito bem aquele olhar: era o de uma fera acuada. Enfim, ele tinha vencido a discusso. E nada poderia deixar Cassie mais irritada...
Levantando-se bruscamente, ela declarou:
	Voc acaba de citar dois casais felizes, mas esqueceu-se de que eles pertencem a outro tempo. Papai e mame no mais fazem parte deste mundo. Quanto a Olive e Alexander, j so bastante idosos.
 Isso no faz a menor diferena.
	Como no?  Assumindo novamente um ar superior, ela afirmou:  Os anos passam, Blake. Chegamos a um novo milnio. A mulher conquistou sua independncia, tanto no plano fsico, quanto no emocional. Ela j no precisa de um homem que a proteja, entende? Pode se cuidar, sozinha, pois tem fora e respeito suficiente para tanto.
	Quer dizer ento que a mulher dispensa, totalmente, a presena do homem em sua vida?
	Nem tanto, querido.  Cassie voltava a sorrir, com uma redobrada dose de auto-confiana.  Como pessoas independentes, ns, mulheres, queremos desfrutar o que h de melhor na vida. Desejamos uma relao afetiva slida e duradoura?  claro que sim. Mas isso no significa que estejamos dispostas a nos atar a um homem pelo resto da vida. Queremos um relacionamento que seja muito bom, enquanto dure. Mas se tiver de acabar, tudo bem. No vamos passar o resto de nossos dias nos lamentando por isso.
Blake a ouvia, boquiaberto. E Cassie prosseguiu:
	A propsito, no foi exatamente isso que voc teve, em seu casamento com Catherine? Vocs viveram bem por algum tempo e ento tudo comeou a desandar... E da, o que houve? Vocs se separaram, cada um foi cuidar de sua vida... E pronto!
: Voc no sabe o que est dizendo.  Blake meneou a cabea, com desgosto.  No imagina a dor que senti, nem o quanto fiquei arrasado, na poca.
	Posso ser inexperiente, mas no tola  ela declarou, num tom severo.  Sei que vocs dois sofreram. Alis, eu o conheo razoavelmente bem, Blake. E lembro-me da dura fase que voc atravessou, depois do rompimento.  Aps uma pausa, acrescentou:  Mas, apesar de tudo, acho que foi melhor assim. Se a relao no estava mais dando certo, para que insistir?
Blake levantou-se e encarou-a de perto, antes de dizer:
	Falar  fcil, Cassie. Difcil  viver.
	Pois  exatamente o que desejo, querido: viver. Para tanto, preciso adquirir experincia. Quero conhecer um homem, casar-me com ele, tentar uma vida a dois. Se der certo, timo. Seno, adeus!
Blake fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, eles traziam uma expresso de infinita amargura.
	Vou perdo-la por isso, Cassie. Vou me esquecer da maneira frvola com que voc acaba de analisar minha vida com Catherine... Pois sei que no tem a menor ideia do erro que est cometendo.
	A culpa  de minha inexperincia, certo?  ela o desafiou.
	Creio que sim  ele concordou, com infinita tristeza.
	E como vou me tornar uma pessoa experiente e ma dura, se no me atirar  vida?
	H muitas formas de se adquirir experincia.
	Pois eu escolhi esta...  E Cassie declarou, com veemncia:  Quero viver!  Blake ia dizer algo, mas ela
calou-o com um gesto.  Bem, acho qile j falei tudo. Agradeo suas tentativas de me aconselhar, mas, para ser franca, no foi para isso que vim at aqui, hoje.
	No?  ele repetiu, engolindo em seco.
	Na verdade, eu s queria inform-lo sobre minha deciso.  Cassie caminhou at a porta do escritrio. J ia sair, mas voltou-se para dizer:  Daqui a um ms, quando completar vinte e um anos, estarei emancipada, de acordo com as leis que regem nosso pas. Assim, cuidarei de minha prpria vida e ningum me impedir de faz-lo. Mas como tenho uma grande considerao por voc, Blake querido, achei que devia lhe contar sobre minhas pretenses.  Mandando-lhe um beijo, Cassie despediu-se.  At a prxima quarta-feira, sr. Campbell. Cuide-se com carinho, at l.  E saiu, enquanto Blake deixava-se cair na cadeira, diante de sua mesa de trabalho.

CAPITULO II

Dirigindo seu Escort pelas ruas pouco movimentadas de Heaven City, na costa leste da Flrida, Cassie refletia sobre a conversa que acabara de ter com Blake. Lembrava-se, particularmente, do momento em que ele havia lhe tomado a mo e, armando-se de pacincia, dissera: "Escute, querida, eu no quero discutir com voc..."
Cassie sorriu. Como tinha sido difcil controlar a vontade de beij-lo, naquela hora! E como podia lembrar-se de cada trao do rosto msculo... O nariz afilado, os lbios sensuais, os olhos castanhos e luminosos. Tudo naquele homem parecia denotar elegncia, charme e vigor. Mas o que realmente impressionava em Blake np era apenas a beleza fsica. Aquele homem possua um carisma, uma aura capaz de fascinar at a mais insensvel das mulheres.
 Ei, princesa, procure olhar por onde anda!
A advertncia fez com que Cassie interrompesse o fluxo de pensamentos. Piscando os olhos, ela constatou, espantada, que acabava de cometer uma infrao: tinha fechado uma caminhonete Dodge Dakota, quase provocando um acidente srio. Se fizesse isso num cruzamento, na hora do rush, as consequncias poderiam ser terrveis.
Felizmente o motorista da caminhonete no tinha sido grosseiro, Cassie pensou, endireitando-se no assento, repreendendo-se mentalmente por ter se distrado tanto. Afinal, o trnsito exigia concentrao total.
Depois, quando chegasse em casa, Cassie poderia continuar pensando em Blake, como fazia com frequncia.
Afinal, ela amava Blake desde sempre... Ou, mais claramente falando, desde a adolescncia. A primeira vez em que seu corao disparara de paixo... fora por Blake. Em seu primeiro sonho romntico... o Prncipe Encantado era um homem alto, de porte altivo e rosto de traos perfeitos: Blake Campbell. Ele fora, ainda era e sempre seria seu primeiro e nico amor. S que nunca se dera conta disso.
Cassie o conhecera quando era ainda uma garotinha.
Seu pai, Henry Warrington, levara Blake para jantar, numa j longnqua noite.
Cassie lembrava-se de Blake tomando-a no colo, fazendo-a rir com seus gracejos, entretendo-a com histrias de fadas, encantando seu corao de menina. Claro que, naquele tempo, ela no tinha a menor ideia do que significava a palavra paixo. Mas, em seu mundo infantil, Blake j ocupava um posto privilegiado.
Para a garotinha Cassie, Blake era um moo bonzinho, muito amigo de papai...
Na poca, ela nem sequer imaginava a profunda amizade que unia os dois homens.
No sabia que Blake considerava Henry como um verdadeiro pai. E que Henry, por sua vez, via-o como o filho que jamais tivera. Tanto, que vrios anos antes de falecer indicara-o como seu sucessor, na empresa. Confiava tanto em Blake, que designara-o, tambm, como procurador dos bens da famlia.
A maior prova da afeio do velho Henry, porm, fora o fato de nomear Blake como guardio de sua nica filha. Essa vontade fora firmada em testamento e acatada pela corte judicial de Heaven City, logo aps seu falecimento.
Um profundo suspiro brotou do peito de Cassie. No queria pensar no pai, de quem sentia tanta falta, apesar de ele ter falecido trs anos atrs.
No fundo, estava certa de que passaria o resto da vida com saudade de Henry... E no era para menos, pois, enquanto vivera, ele a criara com todo o amor. At mimara-a demais, Cassie pensou, com um sorriso cheio de saudade.
 Onde quer que voc esteja, papai...  disse, baixinho  sei que continua me amando... Pois o sentimento que nos une  mais forte do que tudo, neste ou em qualquer mundo.
Uma buzina soou forte, assustando Cassie.
 Minha nossa!  ela murmurou, arregalando os olhos azuis, numa expresso de espanto.  Dessa vez, quase passei um farol vermelho.
Era melhor interromper as recordaes, ao menos at chegar em casa.
Concentrando-se apenas no trfego, Cassie afastou-se do centro da cidade. Cerca de vinte minutos depois, chegou ao bairro nobre, onde morava.
A manso Warrington ficava numa alameda tranquila, ladeada de rvores frondosas. Era de estilo colonial, com paredes brancas e janelas azuis. Construda havia muito tempo, estava bem conservada. Erguia-se, imponente e altiva, em meio a uma grande rea verde.
A propriedade inteira era cercada por uma sebe-viva e florida. Tinha,  frente, um extenso gramado, onde se destacavam alguns canteiros de flores multicoloridas e um chafariz de pedra, circundado por bancos de madeira. Nos fundos da propriedade, alm da piscina e de uma quadra poliesportiva, havia um pomar e, mais adiante, um bosque com rvores centenrias.
O interior da manso era to luxuoso quanto sugeria sua fachada. Mobiliada com bom gosto e sofisticao, a manso tinha uma sala dividida em dois ambientes, vrias sutes, biblioteca, sala de vdeo e som e tudo o mais que era necessrio ao conforto e bem-estar de seus moradores.
Mveis de mogno legtimo, verdadeiras preciosidades, pareciam ter sido fabricados recentemente, devido a seu incrvel estado de conservao. Entretanto, contavam mais de um sculo de existncia.
Um observador menos atento poderia pensar que a manso Warrington era uma espcie de museu de antiguidades, muito bela, porm nada funcional... Mas isso seria um terrvel engano.
Ali ocorria uma eficiente combinao entre a modernidade e o passado. E o resultado era fantstico: na sala de som e vdeo, equipamentos de ltima gerao ofereciam, ao usurio, um som cristalino e imagens de alta definio. Entretanto, a estante onde ficavam os aparelhos datava de um tempo bem anterior  inveno da tev.
Na biblioteca, um moderno sistema de computao guardava o registro de todas as obras ali existentes, em prateleiras que iam do cho ao teto. Livros de literatura clssica, moderna, poesias, trabalhos retratando vrios movimentos artsticos, telas, esculturas e tapearias. Essas eram as riquezas preferidas de Henry Warrington, que sempre fora um amante das artes. Deixara-as para sua nica filha, que tambm sabia apreci-las. Afinal, tivera, no pai, um professor maravilhoso. Desde cedo, ele a ensinara a desenvolver a sensibilidade artstica.
" preciso aprender a ver as obras", Henry dizia-lhe. "Ver com os olhos e tambm com o corao." E ela fora uma tima aluna.
A primavera mal havia comeado. E, no entanto, muitas flores tinham desabrochado nos canteiros, presenteando os olhos com suas cores e, o olfato, com um suave perfume. Era nisso que Cassie reparava, ao transpor o porto da propriedade Warrington.
Freou seu escort e desceu, por alguns momentos, para contemplar melhor os canteiros. Depois, entrou novamente no veculo e guardou-o na garagem, ao lado de um Renault e um Mercedes. Poderia usar qualquer um daqueles carros, quando bem entendesse. Mas detestava parecer excessivamente sofisticada, inclusive porque quase nunca usava roupas que combinassem com esse tipo de veculo. Adorava jeans, camisetas, tnis, vestidos soltos, enfim, trajes descontrados. S vestia-se com requinte em ocasies absolutamente necessrias. No mais, preferia o estilo livre, e um tanto rebelde.
Depois de deixar o Escort na garagem, Cassie seguiu direto para sua sute, situada no andar superior da manso. E tambm ali ela j havia posto sua marca registrada... Conservava os mveis antigos, pois achava-os muito bonitos. Mas tinha, nas paredes, tapearias de artistas de vanguarda, uma tela surrealista e vrias gravuras que retratavam obras de seus pintores preferidos: Picasso, Gauguin e Klimt.
A sute de Cassie era composta de uma ante-sala, dormitrio e banheiro. Em geral, ela gostava de ficar na ante-sala, assistindo a um bom vdeo na tev, ouvindo msica, ou estudando para os exames que em breve prestaria, para ingressar na Faculdade de Letras da universidade local.
Naquela tarde, porm, Cassie precisava refletir. Passando direto pela sala, atravessou o dormitrio e, abrindo uma porta envidraada de par em par, sentou-se na sacada que oferecia uma bela viso da quadra, do pomar e do bosque.
Aquele era seu ponto preferido, quando queria meditar, ou buscar soluo para algum problema. Tirando os tnis, esticou as pernas e recostou-se na grade de ferro batido da sacada. Uma brisa suave brincava em seus cabelos negros, despenteando-os. Cassie ajeitou-os com um gesto gracioso, enquanto um suspiro brotava-lhe do peito.
Sentia-se num curioso estado de esprito. No sabia, ao certo, se deveria comemorar ou lamentar seu comportamento, durante o encontro com Blake.
De uma coisa, porm, tinha certeza: havia jogado a ltima e decisiva cartada, para conquistar o homem que seu corao elegera. Agora, restava esperar pelo resultado... Que seria positivo... Ou negativo?
Portar-se daquela forma, diante de Blake, fora muito difcil. Em certos momentos, chegara a parecer impossvel.
Por duas vezes, durante a conversa, ela sentira vontade de revelar suas verdadeiras intenes, de implorar a Blake que no a julgasse uma garota inconsequente e ftil.
Mas, tambm, o que Blake poderia pensar a seu respeito, depois da cena que ela fizera? E atuara de modo to convincente, que conseguira choc-lo.
Uma sensao de remorso invadiu Cassie, que de repente teve vontade de chorar. Havia dito coisas horrveis, tais como:
"Quantas virgens de vinte e um anos existem, na costa leste americana?"
Ou: "Sexo no tem nada a ver com amor..."
Depois disso, Blake teria todo o direito de trat-la como uma pessoa ftil e cruel. E, o que era ainda pior: ela nem sequer poderia protestar...
E quando mencionara, num tom ferino, o fracasso do casamento de Blake! Chegara a fjcar chocada com sua prpria calma, ao tocar num. assunto to doloroso. Pois sabia o quanto Blake fora apaixonado pela ex-esposa. Talvez ainda a amasse... Quem poderia dizer?
 Tomara que no  Cassie murmurou, fechando os olhos azuis, por um instante.  Tomara que ele j a tenha esquecido. Caso contrrio, serei obrigada a perder minhas ltimas reservas de esperana.
O remorso redobrou de intensidade.
Tinha feito um papel lamentvel, diante de Blake, ela concluiu. E mesmo que revelasse a verdade, que confessasse que tudo no passara de mera representao, ele no acreditaria...
"Anime-se, Cassie Warrington", ela se ordenou, em pensamento. "Nada de arrependimentos. O importante, agora,  ter f no sonho que voc vem acalentando, nos ltimos anos. F, garota."
Durante vrias semanas, Cassie havia pensado num meio de chamar a ateno de Blake sobre si.
Que ele a cumulava de carinho e considerao, isso no constitua novidade. O problema era que Blake a via como a uma irm caula, algum que precisava de proteo e, claro, afeto. S que no ersa. \)em isso que Cassie desejava...
H quantos anos esforava-se para que Blake a notasse, a enxergasse como... mulher! Entretanto, ele continuava a trat-la como uma garotinha.
Olhares, pretextos e tentativas de aproximao... nada disso dera certo. Parecia que qumto mais Cassie tentava provar que j era uma pessoa adulta, mais ele a via como criana.
Quantas vezes, em sonhos, ela no o ouvira cham-la de... minha querida. S qvie numa entonao diferente da que Blake usava com freqtincia
Por tudo isso, as esperarias de que ele algum dia a considerasse mulher iam se esgotando...
Quando Blake se casara, vrios anos atrs, Cassie julgara que fosse morrer de cime. Vencera o prprio sofrimento, dizendo a si mesma que, se amava Blake, deveria desejar sua felicidade. E se ele estava feliz, com Catherine... tudo bem.
Quantas vezes Cassie pensara assim, tentando convencer seu corao desse fato. Mas quando comearam as primeiras discusses entre Blake e Catherine, Cassie sentira sua paixo redobrar. E quando Catherine partira, para nunca mais voltar, Cassie vibrara de alegria, esperana e paixo.
Ao ver Blake arrasado, porm, sentira um profundo remorso. Ele levara um bom tempo para se recuperar do golpe. Um tempo no qual Cassie vira-se vtima de dois sentimentos contraditrios: por um lado, ficava feliz por saber que poderia sonhar novamente com o amor de Blake... Por outro, detestava-se por sentir-se assim, quando ele estava sofrendo tanto. Deveria lamentar, com Blake, a ausncia de Catherine... Mas como domar seu corao rebelde?
O tempo passara. Blake recuperara-se da crise e voltara a ser o mesmo de antes... O mesmo? Talvez no. O casamento fracassado deixara-lhe um toque de melancolia, nos olhos castanhos. Mas isso s servira para torn-los ainda mais profundos e luminosos.
Assim, a esperana de Cassie redobrava de intensidade, a cada dia. Esperana de que Blake Campbell, seu primeiro e nico amor, enfim despertasse para ela... E correspondesse  paixo que a consumia.
Mas isso jamais acontecera. E agora, a menos de um ms de completar seu vigsimo primeiro aniversrio, Cassie sentira a premncia do tempo. Se no tomasse uma atitude, seria obrigada a conformar-se com a ideia de perder Blake para sempre. Algum dia ele acabaria conhecendo outra Catherine e a desposaria... Ou ento manteria a promessa que fizera, por ocasio do divrcio: a de nunca mais se casar.
No fundo, Cassie jamais acreditara nessa resoluo. Afinal, conhecia o carter romntico de Blake. Sabia, tambm, que ele no suportaria a solido, por muito tempo. E vrios anos j haviam transcorrido, desde o rompimento com Catherine.
Cassie passou a mo nos cabelos negros, num gesto de inquietao. Detestava pensar nisso, mas era bvio que Blake no vivia exatamente s, embora morasse sozinho, numa casa projetada e construda por ele prprio, pouco antes de se casar com Catherine. Certamente envolvia-se em casos, com mulheres. Afinal, era um homem belo, atraente, saudvel e brilhante. E devia ter um rol de admiradoras... 
Essa suposio, que alis era uma certeza, sempre irritava Cassie. Por duas vezes, ao chegar adiantada ao encontro semanal com Blake, vira uma mulher ruiva, alta, de beleza extica, saindo do edifcio da Warrington Cons-truction. Podia ser uma cliente, ou funcionria da empresa. Mas Cassie tivera a ntida impresso de que se tratava de uma namorada de Blake.
Esse fato ocorrera h cerca de um ano. Depois, Cassie nunca mais tornara a ver a mulher, embora chegasse adiantada, propositadamente, em vrias ocasies.
Levantando-se, ela foi at o quarto e sentou-se diante de um espelho que ocupava uma parte da parede, ao lado da cama.
 No me olhe assim  ordenou  imagem refletida.  Eu precisava fazer alguma coisa, no?
Isso era verdade. Depois de refletir longamente, ela conclura que teria de tomar uma providncia, para conquistar Blake. No podia simplesmente, aceitar que ele a ignorasse. Queria lutar, chamar-lhe a ateno, antes que outra mulher o fizesse.
Por esse motivo, ela planejara cuidadosamente a cena que tinha feito diante de Blake, naquela tarde. Havia decorado cada fala, cada nuance de voz, cada gesto...
Dizer a Blake que estava disposta a perder a virgindade, a casar-se com o primeiro pretendente que aparecesse, e que isso nada tinha a ver com amor... Fora muito difcil, e por vrias razes: em primeiro lugar, porque ela possua um carter romntico. Jamais se entregaria a um homem, apenas para adquirir experincia. No tinha a menor inteno de desposar o primeiro que aparecesse... E em hiptese alguma faria sexo desvinculado do amor.
S falara tudo aquilo a Blake para choc-lo, para que ele se convencesse, de uma vez por todas, que ela no era uma criana e sim uma mulher. E quem sabe se a partir dessa descoberta Blake no comearia a olh-la de forma diferente...?
Cassie franziu a testa, com ar de dvida. Que havia cometido uma loucura, disso no restava a menor dvida. A questo era: essa loucura daria resultado?
	Claro que sim  ela respondeu, em voz alta. Mas no soava nada convincente...
O grande receio de Cassie era que Blake, em vez de passar a v-la como uma mulher crescida, que inclusive tinha direito de dispor do prprio destino e do prprio corpo, a tomasse por uma garota tola e sem sentimentos. Se Blake assim o fizesse, ela no teria o menor direito de protestar.
De qualquer modo, a sorte estava lanada... Agora, s restava esperar. E essa espera poderia causar uma terrvel angstia.
	No vou me entregar  tristeza  Cassie decidiu, levantando-se e caminhando at o banheiro.  No posso duvidar do meu plano que, apesar de insensato, foi o nico que pude arranjar.
Afinal, j havia tentado de tudo, nos ltimos anos, para abrir os olhos de Blake. Mas sempre acabava fracassando em seu intento.
Era hora de mudar a situao, Cassie pensou, enquanto se despia.
Dentro de um ms, sob o ponto de vista jurdico, ela seria considerada uma mulher adulta, emancipada, capaz de responder por todos os seus atos. E ento teria de fazer uma opo: continuar sonhando com o amor de Blake, ou aceitar o duro fato de que ele jamais a amaria. S que Cassie rejeitava ambas as alternativas. No queria Blake apenas num sonho dourado, nem tampouco conformar-se com a derrota, com a impossibilidade de t-lo a seu lado para sempre. Queria, isso sim, jogar sua ltima cartada. E era exatamente o que havia feito, naquela tarde.
	E que a sorte me ajude  ela murmurou, abrindo a ducha.
O forte jato de gua massageou-lhe os msculos tensos e encheu-a de esperanas. A partir daquele momento, Blake nunca mais poderia trat-la como a uma criana. No aps t-la ouvido falar sobre virgindade, casamento e sexo.
Um sorriso triste insinuou-se nos lbios de Cassie. Dissera tantas coisas absurdas a Blake quando, no fundo, tudo o que desejava era falar-lhe de amor. Algum dia poderia fazer isso? Ela esperava, de corao, que sim.

CAPITULO III

	E ento, querida, como foi seu encontro com Blake, hoje?  Olive perguntou, enquanto passava a travessa de salada para que Cassie se servisse.
Cassie, Alexander e Olive estavam sentados  mesa de jantar. O prato principal era fil de peixe, com arroz branco e salada de folhas.
Cassie serviu-se de um pouco de alface, antes de responder:
	Tudo correu bem.  E olhando de um para o outro, indagou:  E quanto a vocs? Como passaram o dia?
	Sem grandes novidades, querida  disse Alexander, num tom carinhoso.  Mas fiz um canteiro novo e isso me deu muita satisfao.
Alexander Masterson trabalhava como caseiro da famlia Warrington, havia muito tempo. Respondia tambm pela manuteno da propriedade, cargo que desempenhava com admirvel eficincia. Mas sua verdadeira paixo era jardinagem. Quando mexia com as plantas, esquecia-se do mundo ao redor.
Alexander era um homem de compleio robusta, j um tanto calvo devido  idade avanada. Mas, pelo que Cassie se lembrava, seus olhos negros sempre haviam tido aquela expresso bondosa, que o caracterizava.
Olive era mais alta do que o marido. Tinha um porte altivo, elegante, e ainda trazia, no rosto marcado pelos anos, os traos de beleza da juventude. Usava os cabelos sempre presos num coque solto, sobre a nuca. Seus olhos, negros como os do marido, possuam um toque de vivacidade que a passagem do tempo no conseguira apagar.
	Alexander, meu velho, acho que voc est ficando caduco  disse Olive.
	Ora essa, mas por qu?  ele reagiu, surpreso.
	Porque voc anda muito distrado, ultimamente.  E ante o olhar interrogativo do marido, Olive explicou:  Voc sabe muito bem que a menina Cassie sempre nos conta, em detalhes, sobre seus encontros semanais com Blake. E se essa pobre criana mudou de assunto rapidamente, perguntando sobre o nosso dia,  porque deve ter discutido com ele. E voc nem se deu conta disso!
O velho senhor ia retrucar, mas Cassie interveio.
	No acho que Alexander esteja caduco. E tampouco sou uma pobre criana, minha querida Olive.
	Muito bem  Olive assentiu, com um sorriso carregado de sabedoria.  Talvez eu tenha exagerado, em meu julgamento. Mas ser que tambm errei ao supor que voc e Blake se desentenderam, hoje?
Antes que Cassie respondesse, Alexander fitou-a carinhosamente e declarou:
	Para ns, voc sempre ser uma garotinha, querida. Nunca se esquea disso.
	E como poderia, se vocs me lembram desse fato a todo momento?  Cassie sorriu, comovida. Ficou em silncio
por alguns instantes, enquanto se servia de um pouco de arroz e um fil de peixe. Por fim, voltou-se para Olive:  Quanto a minha conversa com Blake... bem... digamos que ele no ficou muito feliz com certas... opinies que andei manifestando.
	E o que foi que voc disse a ele, querida?  Olive quis saber.  Detesto parecer intrometida, mas no consigo me conter. No quando vejo essa inquietao, em seus olhos.
	Voc me conhece muito bem, no  mesmo?  Cassie indagou, num tom melanclico.
	Oh, no se pode esconder nada de Olive, meu bem  Alexander afirmou.  No sei como explicar isso, mas o fato  que ela consegue adivinhar nossos pensamentos e sentimentos mais secretos.
A velha senhora riu, divertida.
No h nada de sobrenatural nisso, meu velho. Faz sessenta e um anos que estou neste mundo. E uma das vantagens da idade  aprender a conhecer os seres humanos, sobretudo os que mais amamos.
	Sou cinco anos mais velho do que voc, e nem por isso saio por a, lendo a mente das pessoas.
	Talvez porque voc seja distrado... Ou porque prefira prestar mais ateno s plantas do que aos seres humanos  Olive opinou, lanando-lhe um olhar cheio de amor e compreenso. Referia-se, naturalmente,  paixo do marido pela jardinagem.  Dediquei boa parte de minha vida ao trabalho de entender o mundo, as pessoas, as relaes que as unem. E acabei aprendendo alguma coisa. Bastou-me olhar para nossa menina, quando ela voltou da cidade, para compreender que algo no ia bem.  Voltando-se para Cassie, acrescentou:  E se eu puder ajud-la, querida...
	Oh,  claro que voc pode contar conosco, sim  Alexander declarou, com veemncia.
	Obrigada  Cassie agradeceu, emocionada.  Vocs so uns anjos.
Por algum tempo, os trs saborearam o jantar em silncio. E foi Olive quem retomou o assunto.
	Mas afinal, querida, o que voc disse a Blake, para deix-lo to aborrecido?
	Falei sobre... casamento  Cassie respondeu, no tom mais natural que conseguiu. Usou propositadamente esse termo, em vez de sexo, para no chocar Alexander e Olive.
Cassie fitou ambos com uma expresso terna. Decididamente, no teria coragem de contar-lhes como fora seu encontro com Blake, durante a tarde. Seria chocante demais, para os dois. Por isso, ela apenas comentou:
	Blake no foi muito feliz em seu casamento...
	Nada feliz, eu diria  Alexander opinou.  Aquela mulher quase acabou com ele... Pobre rapaz.
	No fale assim, meu velho  Olive repreendeu-o, num tom carinhoso.  Os dois at que viveram bem, por algum tempo. Mas depois se desentenderam.
	Por culpa de Catherine  Alexander replicou.
 Nesses casos, querido, quase no h culpados ou inocentes. Creio que tanto Blake como Catherine tentaram salvar a relao. Mas s vezes isso se torna impossvel.  Voc tem uma viso bondosa demais sobre as pessoas
	Alexander sentenciou.  Mas nem todas so to bem-intencionadas quanto parecem.  Num tom veemente, o velho senhor concluiu:  Catherine jogou pela janela sua chance de ser feliz. Jamais conseguir encontrar outro homem, to ntegro e atencioso quanto Blake.
	Bem, talvez a prxima mulher que o desposar saiba dar-lhe o devido valor  disse Olive.
	Duvido que isso acontea.  Alexander suspirou.
	Por qu?  Cassie tentou gracejar.  Voc acha que todas as mulheres do mundo so tolas como Catherine?
	Claro que no, minha criana  ele respondeu, fitando-a com complacncia.  Mas sei que Blake no tem a menor inteno de repetir essa experincia frustrante.
	Sei que ele ficou muito amargurado com o fracasso do casamento  Olive interveio.  Mas algum dia abrir seu corao, para um novo amor.
	Tomara que sim.  Cassie suspirou, profundamente.
	Oh, ele far isso, tenho certeza  Olive declarou, convicta.  Blake  um bom homem e merece ser feliz.
	Nesse ponto, concordo com voc  Alexander declarou.  Mas no creio que Blake volte a se casar. Desde o divrcio, ele nunca mais teve nenhum relacionamento srio, com ningum. Apenas alguns casos passageiros, sem grandes envolvimentos.
	Alexander!  Olive o advertiu.  No fale desses assuntos na frente de Cassie.
	Oh, por favor, minha querida  Cassie protestou.  J sou uma mulher adulta e, alm disso, sei muito bem que Blake tem seus casos, por a. E por que no teria, se  um homem livre e saudvel?
	J faz algum tempo que Blake vive em total solido 	Alexander confidenciou.
	Seja como for, este assunto no nos diz respeito.  Olive encerrou a conversa.
O jantar havia chegado ao fim. Levantando-se, Olive pediu licena, retirou os pratos e dirigiu-se  copa. Voltou pouco depois, com a sobremesa: bolo de chocolate e sorvete de creme, a guloseima predileta de Cassie.
	Fiz especialmente para voc, minha querida  disse,  servindo-a em primeiro lugar.
Cassie sorriu, agradecida.
	Vocs vivem me enchendo de mimos.
	Carinho nunca  demais, meu bem  Olive sentenciou, enquanto servia o marido. Depois, sentou-se e provou um pedao de bolo. Saboreou-o com uma expresso crtica e aprovou:  Hum... Parece razovel.
	Razovel?  Cassie repetiu, sorrindo.  Est sim plesmente uma delcia, Olive. Voc sabe muito bem que 
uma verdadeira mestra da arte culinria.
	Bondade sua, criana.  Olive sorriu, com modstia.
	Acho que ela quer mais elogios  disse Alexander, piscando um olho para Cassie.
	Ora, cale-se e coma sua sobremesa, sim?  Olive ordenou, sorrindo.
Cassie sentiu-se invadida por uma onda de ternura. Era privilegiada por contar com o afeto de duas pessoas to simples e sbias como Olive e Alexander. A vida no fora to cruel com ela, afinal. Tirara-lhe a me e, trs anos atrs, o pai. Mas deixara-lhe aquele adorvel casal, que considerava como uma verdadeira famlia. E tambm Blake, claro. Mas, com ele, Cassie ainda no tinha certeza de poder ser feliz.
Com um leve meneio de cabea, ela afastou esse pensamento incmodo. No queria ficar triste novamente. No queria pensar em Blake.
Olhando de Alexander para Olive, pediu:
	Contem-me sobre vocs.
	Contar o qu, meu bem?  Alexander indagou.
	Como se conheceram?
	Ah, isso j faz muito tempo  o velho senhor respondeu.
	Essa parte Cassie j sabe, querido  Olive interveio. E ento voltou-se para Cassie.  Encontrei meu Alexander num dia particularmente abenoado, em julho de 1953. Achei que ele se parecia com o Prncipe Encantado dos meus sonhos de menina... E no me enganei.
	Eu tinha acabado de chegar da Amrica do Sul, onde havia ficado por trs anos, trabalhando numa empresa de urbanizao e jardinagem  disse Alexander.  Foram os trs anos mais longos de minha vida. No porque eu no gostasse de meu trabalho... Mas ficar longe da famlia era muito doloroso.
	De qualquer forma, valeu a pena, porque ele voltou com os bolsos cheios de dinheiro...  Olive gracejou.
	E o corao cheio de sonhos  Alexander completou.
	De fato, fui muito bem pago, durante esse perodo. Quando cheguei, pude comprar Uma pequena propriedade rural, que era o sonho de meus pais. Eles viveram l, at o fim da vida.
E sinto-me feliz por ter-lhes proporcionado essa alegria.
	Voc se esqueceu de dizer que aquela propriedade era tambm um sonho seu  Olive afirmou.  Entretanto, voc quase no teve tempo de desfrut-la...
	Por sua culpa, pois voc roubou meu corao  Alexander retrucou, sorrindo.
	Que histria linda!  Cassie exclamou, comovida.  Mas como foi o primeiro encontro de vocs?
	Bem, meu pai, que tambm era jardineiro, conheceu Alexander numa quermesse - Olive narrou.  Os dois fizeram amizade e Alexander contou-lhe que estava procurando trabalho. Meu pai ajudou-o a arranjar um emprego, em menos de um ms. Certa noite, convidou-o para jantar em nossa casa.  Ela fez uma pausa, antes de acrescentar:
	Eu tinha dezesseis anos, na poca.
	Era uma mocinha tmida e muito bonita  Alexander interveio.
	E ele parecia um gal de cinema  Olive declarou, com um largo sorriso.
	Por a voc v, minha querida Cassie, que desde aquela poca Olive necessitava de culos...  O velho senhor gra
cejava.  Pois j no enxergava nada bem.
	Ora, no diga tolices  a velha senhora advertiu-o, suavemente.  Voc era muito bonito, sim.  E continuou a narrativa:  Como j lhe contei, Cassie querida, eu tinha dezesseis anos. Mas menti para Alexander sobre isso. Disse-lhe que j havia completado dezessete.
	Por qu?  Cassie quis saber.
	Tinha medo de que aquele lindo rapaz de vinte e um anos me achasse criana demais...
	Mas a mentira tem pernas curtas.  Alexander mencionou o velho ditado.
	E verdade  Olive concordou, com ar divertido. Voltando-se para Cassie, prosseguiu:  Ele continuava frequentando
nossa casa. E havia um toque de romance no ar, pois...
	Ela estava me enfeitiando, querida  Alexander completou.
	Ou vice-versa  Olive contraps.  Para o meu aniversrio de dezessete anos, mame planejou fazer um bolo e convidar alguns parentes e amigos mais prximos. Naturalmente, ela no se esqueceu de Alexander, que a essa
altura j era considerado como parte da famlia.  Contendo o riso, a velha senhora continuou:  Bem, quando ele chegou em minha casa, trazendo-me uma caixa de bombons e um perfume, disse em alto e bom som, para que todos ouvissem:
"Espero que voc goste desses presentes, que escolhi com o infinito carinho que habita meu corao. Desejo-lhe toda a felicidade do mundo, neste dia especial, em que voc com pleta dezoito anos de vida.
Alexander comeou a rir. E Olive o acompanhou, por alguns instantes. Depois, prosseguiu:
	Um burburinho correu, entre os convidados. Voc pode imaginar o espanto que as palavras de Alexander causaram, sobretudo porque sobre o bolo havia duas velinhas, formando o nmero que indicava minha verdadeira idade: dezessete anos.
	E, naturalmente, Alexander descobriu a verdade  Cassie concluiu.
	Isso mesmo  o velho senhor confirmou.  Mas, quela altura, ela j havia conquistado meu corao.
	Bem...  Olive tinha uma expresso radiante, nos olhos negros.  Tudo indica que sim.
	Ento, voc era realmente muito jovem, quando se apaixonou por ele  disse Cassie.  Mas sua pouca idade no a impediu de fazer a escolha certa.
	O amor no se detm diante deste, ou de qualquer outro obstculo  Olive sentenciou.
	Tem razo  Cassie concordou, com o corao descompassado. Esperava, sinceramente, que essa verdade se aplicasse, tambm, a ela e Blake.
O amor que unia Olive e Alexander era intenso, profundo, eterno... Cassie pensou. Um encontro perfeito de almas. E era exatamente isso que ela desejava conquistar, com o homem que seu corao elegera.
Era verdade que a diferena de idade entre Alexander e Olive era de apenas cinco anos... Ao passo que treze anos a separavam de Blake. Mas talvez esse obstculo no a impedisse de ser feliz.
Sentado em sua poltrona predileta, na sala de sua casa, Blake saboreava uma dose de bourbon. Tinha trocado o terno que usara naquele dia por um confortvel par de chinelos, short branco e camisa plo azul-clara.
Pela ampla janela aberta, podia contemplar o cu estrelado, onde a lua nova se destacava, como um fino anel de prata.
A primavera ainda estava em seu incio, mas a temperatura subira sensivelmente.
Blake adorava essa estao, que considerava a mais bela do ano. Tambm gostava de sentar-se ali, naquela poltrona, todas as noites, quando voltava para casa. Mas, naquele momento, no se sentia com a menor disposio para desfrutar a beleza da paisagem. At mesmo o bourbon, sua bebida predileta, parecia ter perdido o sabor, naquela noite.
Tambm, no era para menos: estava profundamente angustiado, sentindo-se num beco sem sada.
A imagem de Cassie ocupava-lhe a mente. O que aquela garota rebelde e obstinada queria, afinal? Entregar-se ao primeiro homem que aparecesse! Teria perdido completa-mente o juzo?
Irritado, Blake depositou o copo de bourbon sobre uma mesinha baixa, ao lado da poltrona. Estava to tenso, que acabou batendo o copo com fora, sobre o tampo, fazendo transbordar parte da bebida.
- Droga  resmungou, levantando-se.
Estava de pssimo humor. A conversa que tivera com Cassie, naquela tarde, estragara-lhe o resto do dia e, pelo visto, o atormentaria por toda a noite.
Havia ficado to tenso, que nem conseguira se concentrar, durante a reunio com o pessoal do departamento de projetos da Warrington Construction, no final do expediente.
Pressionando as tmporas, Blake tentou lembrar-se do assunto que havia tratado, com seus assessores. Sabia, apenas, que se tratava da construo de um condomnio fechado, em New Paradise, um bairro elegante da cidade. No mais, no se recordava de quase nada. Felizmente Dorothy, sua secretria, era bastante prtica e eficiente. Com certeza havia anotado os dados principais da reunio. Na manh seguinte, ele os estudaria, pois teria um novo encontro com os assessores,  tarde.
Mas no era em trabalho que Blake queria pensar, no momento. Era em Cassie Warrington e suas ideias malucas, a respeito de casamento e virgindade.
Andando de um lado a outro da sala, Blake sentia-se presa de um desespero crescente.
Se Cassie cometesse a loucura que havia anunciado, naquela tarde, o patrimnio Warrington Construction se esgotaria em pouco tempo. Afinal, no seria difcil aparecer um oportunista que desposasse Cassie, movido apenas por interesse em sua fortuna. E Cassie cairia na armadilha, sem titubear. Afinal, ela queria tornar-se mulher... E no estava preocupada em escolher bem o homem a quem se entregaria. Isso, Cassie deixara bem claro, naquela tarde.
Blake meneou a cabea, com uma expresso de desgosto. Cassie julgava-se uma garota esperta, mas no fundo era bastante ingnua, ele pensou, aflito. O problema era que ela possua um gnio terrvel. E quando punha uma ideia na cabea, nada a demovia.
 O que fazer?  Blake perguntou-se, em voz alta.
De sbito, um sentimento de revolta o invadiu. Tinha trinta e quatro anos de idade e considerava-se um homem de mente aberta. Ser que estava enganado? Ser que seus valores morais eram antigos e ultrapassados? A juventude teria se esquecido de fatores to essenciais como paixo, amor, confiana, tica... E tantos outros?
Naquela tarde, quando questionara Cassie a respeito disso, ela reagira com tanta displicncia, que chegara a choc-lo. Falara de casamento se como mencionasse um assunto banal, sem a menor importncia. Ser que a juventude atual havia se tornado to frvola e insensvel?
No era possvel, Blake pensou. No podia acreditar em tamanho absurdo.
"Calma", ele recomendou-se, respirando compassadamen-te, numa tentativa de relaxar. No podia perder tempo se indignando, quando tinha um problema to srio em mos. Precisava encontrar uma sada... E pretendia fazer isso, naquela noite.
De repente, ocorreu-lhe uma dvida aterradora: teria ele algo a ver com a descrena de Cassie no amor? At que ponto seu casamento frustrado com Catherine a teria influenciado, para tomar aquela deciso absurda?
Com uma pontada de dor, Blake lembrou-se de que Cassie o questionara duramente, a respeito do fracasso de seu casamento.
Mas, em contrapartida, Blake ponderou, exemplos de casais felizes no faltavam... Olive e Alexander, por exemplo. Isso, sem contar que Cassie ouvira Henry falar, durante anos a fio, sobre o quanto fora feliz, com sua me.
No, Blake concluiu, com um suspiro. Ele no podia ser culpado pelas ideias errneas de Cassie, a respeito do amor.
 A menos que...  ele murmurou, estremecendo, lembrando-se de algo terrvel: muitas vezes dissera, na presena de Cassie, que o casamento era uma instituio falida, uma experincia que ele no mais tencionava repetir, para no sofrer novas decepes. Firmara, perante ela, sua deciso de permanecer solitrio pelo resto da vida.
Mas Cassie era uma garota perspicaz e inteligente... Certamente sabia que ele, embora se mantivesse firme na resoluo de nunca mais se casar, nem por isso deixava de relacionar-se, eventualmente, com mulheres.
Na verdade, Blake jamais fizera questo de ocultar esse fato de Cassie. Ser que isso a havia influenciado de maneira negativa?
Ele passou a mo pelos cabelos negros, num gesto de angstia e cansao. Estava exausto de tanto pensar, sem chegar a concluso alguma. Estava farto.
Precisava encontrar um meio de impedir Cassie de cometer a pior tolice de sua vida. O risco que o patrimnio deixado por Henry Warrington corria pouco significava, diante do perigo que pairava sobre a prpria Cassie. Pois era bvio que ela acabaria se ferindo, se levasse adiante sua deciso insensata. Terminaria por se entregar a algum sem escrpulos, que extrairia dela sua juventude, suas esperanas... Ferindo para sempre seu corao ingnuo. Disso Blake no duvidava, pois conhecia Cassie demais, para saber o quanto ela era sensvel... uma presa fcil para qualquer oportunista.
O problema era que dali a um ms ele perderia totalmente o controle sobre Cassie. Ela completaria vinte e um anos e poderia fazer o que bem entendesse.
Blake lanou um olhar ao redor, para a sala bem mobiliada da casa que ele um dia construra, para ser feliz com Catherine...
Depois do divrcio, pensara em vender a casa, para livrar-se da lembrana da mulher que tanto o magoara. Mas, por fim-, apenas mudara a decorao e os mveis. Colocara, ali, seu prprio estilo. E reconstrura sua vida.
Sobrevivera  crise e, apesar da solido em que vivia, no se considerava exatamente um homem infeliz. Adorava sua profisso, tinha bons amigos, era respeitado e querido.
No possua famlia, mas Olive, Alexander e Cassie haviam preenchido esse vazio. O velho Henry Warrington fora como um pai... E o ajudara a crescer, quando ele era apenas um jovem arquiteto, em incio de carreira.
Um sorriso insinuou-se nos lbios de Blake. Decididamente, ele no podia se queixar da vida. Tinha sonhado, um dia, em ser feliz com Catherine, seu primeiro amor. Se no dera certo, pacincia. Ele no pretendia passar o resto de seus dias lamentando-se por isso. Mesmo porque, com o passar do tempo, acabara compreendendo que ele e Catherine no tinham sido feitos um para o outro, como julgara, a princpio.
Ao despos-la, Blake sonhava em construir um lar, ter filhos, realizar sonhos, dividir os momentos mais belos e os mais difceis.
Catherine, porm, no fora feita para o casamento. Jamais suportara o dia-a-dia, a rotina, a vida pacata que ele tanto desejara.
Com o passar do tempo, ambos foram se desinteressando... A chama da paixo apagava-se, para ceder lugar ao tdio. As primeiras discusses comearam... E logo se tornaram acirradas, violentas.
Desesperado, Blake via suas esperanas de felicidade escapando como areia por entre seus dedos.
Por fim, Catherine confidenciara-lhe, de forma cruel, que no o amava mais. Que talvez nunca o tivesse amado. Que o vira apenas como uma possibilidade de ascender socialmente. E que desejava conhecer outros homens, viver novas aventuras.
Bem, Blake pensou, com um profundo suspiro, Catherine devia estar fazendo exatamente isso, quela altura. Partira de Heaven City para Nova York, onde tentara, sem muito sucesso, uma carreira de modelo.
Blake meneou a cabea e, aproximando-se da mesinha baixa, ao lado da poltrona, pegou o copo e sorveu mais um gole de bourbon.
No queria mais pensar em Catherine. Desejava, apenas, acalmar seu corao com relao a ela. Era ruim guardar mgoas e ressentimentos. A vida deveria seguir adiante.
Agora, ele tinha um novo problema em mos. E esse problema poderia ser resumido em apenas duas palavras: Cassie Warrington.
De sbito, ocorreu-lhe uma ideia: Cassie necessitava de tempo para refletir melhor. Um tempo que lhe possibilitasse descobrir que suas ideias a respeito de sexo e casamento eram totalmente errneas.
O corao de Blake disparou.
 Oh, no  ele disse, baixinho, depositando novamente o copo de bourbon sobre a mesinha.  Isto, agora, no.
O que Blake chamava de isto era aquela torrente de emoes que vez por outra o assaltava. Emoes proibidas, sem o menor sentido... E que diziam respeito a Cassie.
Estaria to carente, a ponto de confundir seus sentimentos por ela? No tinha o direito de v-la como mulher, j que a considerava como a irm caula que jamais possura. Entretanto, havia momentos em que era impossvel evitar... Pois como ignorar a beleza de Cassie, a luminosidade de seus olhos azuis, a delicadeza dos traos do rosto, as curvas do corpo sensual, que devia ser to macio ao toque...
	Basta  ele se ordenou.
Fazendo um intenso esforo, abandonou aquela linha de pensamentos. E voltou a concentrar-se no problema de Cassie.
Havia encontrado um ponto importante, em sua anlise: Cassie precisava refletir. E era exatamente isso que diria a ela, ainda naquela noite:
"D tempo ao tempo, Cassie. No cometa nenhuma atitude precipitada. Espere alguns meses, antes de pr essa deciso maluca em prtica. Tenho certeza de que voc acabar mudando de ideia..."
O nervosismo de Blake redobrou de intensidade. Conhecia Cassie o suficiente para saber que seria intil fazer-lhe esse pedido. Ela era teimosa o bastante para bater o p e at precipitar-se em sua atitude, s para desafi-lo.
	O que fazer?  ele se perguntou, como j ocorrera
tantas vezes, desde aquela tarde.
Era preciso deter Cassie. Mas como? A nica forma de par-la seria...
	Casar-me com ela.  Blake completou o pensamento,
em voz alta.
E ento deu-se conta do absurdo que tinha acabado de proferir. Casar-se com Cassie!? Ser que tambm ele havia enlouquecido?
Quase correndo, subiu as escadas que conduziam ao segundo pavimento da casa. Dirigiu-se a sua sute, despiu-se e foi ao toalete. Precisava tomar uma ducha, para clarear as ideias.
Mas  medida em que o forte jato de gua morna mas-sageava-lhe os msculos tensos, a ideia persistia em sua mente: se ele desposasse Cassie, conseguiria impedi-la de entregar-se ao primeiro oportunista que aparecesse. Poderia, assim, salv-la do perigo... E de sua prpria inconsequncia. Com o passar do tempo, ela reconheceria o erro e reestruturaria sua vida.
At a... tudo mais ou menos bem. Mas quem o salvaria?, Blake perguntou-se. Quem o salvaria das emoes que Cassie por vezes despertava, no recanto mais oculto de seu corao?

CAPITULO IV

A fumaa dos cigarros impregnava o ar. Essa sra uma das restries que Cassie tinha, com relao aos bares noturnos e restaurantes de Heaven City.
Divulgado como um costume charmoso, de bom gosto, nos anos sessenta e setenta, o ato de fumar era agora condenado por muitas campanhas publicitrias... E com razo, pois tratava-se de uma droga perigosa, que causava srios danos  sade.
Outro fator que incomodava Cassie era o consumo exagerado de lcool. Havia pessoas que pareciam pensar que era necessrio embriagar-se ao mximo, para desfrutar uma boa noite de conversa com amigos.
No que Samantha e Janette, as melhores amigas de Cassie, fossem consumidoras de lcool e tabaco em excesso. Samantha j fora fumante inveterada mas, felizmente, deixara o vcio. Tanto ela, quanto Janette, gostavam de tomar chopp escuro, a marca registrada do Last Pub, o barzinho onde agora se encontravam.
Cassie, que eventualmente as acompanhava, no estava bebendo, naquela noite. Era sempre assim, quando as trs saam juntas: uma delas se comprometia a no beber. Assim, estaria apta para levar as outras duas para casa. Faziam um rodzio e, naquela noite, era a vez de Cassie manter-se abstmia
Nenhuma das trs exagerava no consumo de lcool. Mas Janette j estava em seu terceiro chopp e, Samantha, no segundo.
Cassie sorvia, aos poucos, um suco de frutas ctricas. No centro da mesa, alm dos copos, havia tambm uma pequena bandeja com vrios tipos de queijos, circundados por torradas.
O som de antigas canes dos Rolling Stones vinha das caixas, dispostas ao longo das paredes do Last Pub. Dentro de uma hora, um grupo de jazz ocuparia o palco do bar.
Janette e Samantha estavam ansiosas para assistir ao show, pois adoravam esse gnero de msica. Cassie tambm gostava mas, naquela noite, no se sentia com a menor disposio para ficar. S tinha vontade de ir para casa, para refletir sobre os problemas que a atormentavam... E que poderiam ser resumidos em duas palavras: Blake Campbell. No tinha conseguido parar de pensar nele, desde o momento em que o deixara, naquela tarde.
Sabia que Blake devia estar furioso com ela, mas, mesmo assim, sentia uma irresistvel tentao de v-lo... Nem que fosse para discutirem novamente.
Um profundo suspiro brotou do peito de Cassie. Aquela altura, talvez Blake nem estivesse pensando nela. Talvez j houvesse se esquecido das tolices que ela lhe dissera... Ou no?
Conhecia Blake o suficiente para saber que ele nunca desistia de um argumento. Provavelmente, faria de tudo para dissuadi-la das ideias que ela havia defendido, sobre sexo e casamento. A questo era: como Blake tentaria fazer isso? Que recursos usaria?
	Ei, gatinha, vamos danar?
Cassie voltou-se e deparou com um rapaz ruivo e robusto, que oscilava levemente, enquanto a fitava com um sorriso insinuante. Era bvio que havia bebido mais do que podia, pois mal conseguia equilibrar-se.
	Agradeo o convite, mas no estou com vontade  Cassie respondeu, num tom polido.
	Ora, se voc no quer danar, por que veio ao Last Pub?  ele indagou, inclinando-se em sua direo.
	H mais coisas para se fazer, aqui, alm de danar  Cassie retrucou.  E agora, com licena, sim? Estou
conversando com minhas amigas...
	E no pode parar, s por alguns minutos, para danar?
	J disse que no, obrigada  Cassie replicou, impaciente.
Entretanto, o rapaz parecia decidido a no aceitar um no como resposta. Continuava a fit-la, medindo-a de cima a baixo, e por fim disse:
	Sabe que voc fica linda de azul?
De fato, Cassie estava usando um vestido de malha azul-royal, curto, que modelava-lhe as curvas do corpo bem-feito. O decote, um tanto ousado, deixava adivinhar o colo e os seios generosos.
	J voc, meu bem, est uma tentao, com esse vestido vermelho.  Ele voltava-se agora para Janette, uma garota alta e magra, de cabelos castanhos, curtos e um tanto crespos.
	Voc bebeu demais, garoto  disse Janette, num tom espirituoso.  Tanto, que est at trocando as cores, pois
meu vestido no  vermelho, e sim cor de vinho.
	D no mesmo  o rapaz resmungou, voltando a ateno para Samantha.  E voc, minha deusa de verde, est
disponvel para danar, ou tambm prefere ficar com suas amiguinhas?
	Prefiro apenas que voc nos deixe em paz  Samantha afirmou, friamente, afastando da testa uma mecha de ca
belos loiros. De fato, estava usando um conjunto de saia e blusa verde-musgo, por sinal bastante elegante.
	Acho que estou sobrando, por aqui  o rapaz concluiu, apoiando-se na mesa.
	Acertou em cheio, garoto  Janette retrucou.  Boa noite, sim?
	Bem...  Ele abriu os braos, num gesto teatral.  Eu tentei.  E afastou-se, com passos incertos.
	Ah, que chatice  Cassie comentou, aborrecida.
	Ao menos ele no foi inconveniente  disse Janette.
 Vamos esquecer a intromisso, meninas.
	De acordo  Cassie assentiu, antes de sorver mais um gole de suco.  Este bar est lotado demais, para o
meu gosto. Quero ir para casa.
	Mas voc no pode nos deixar agora, menina  Janette protestou.  Lembre-se de que  nossa motorista...
	Isso mesmo  Samantha secundou.
Enfastiada, Cassie consultou o relgio de pulso.
	Prometi a Olive que chegaria por volta de meia-noite. E j passa das onze horas.
	Onze e dez  Samantha anunciou, consultando seu prprio relgio.  Portanto, ainda temos tempo de sobra.
	Sinto muito, mas prefiro ir agora. 
	Por qu?
	Preciso estudar para os exames da universidade.
	Voc nunca estuda na parte da manh  Janette argumentou.
Suspirando, Cassie tentou gracejar:
	Este  o mal dos amigos... Eles sempre sabem de nossa vida, s vezes at mais do que ns.  Dirigindo a Janette
um olhar excessivamente severo, que resultava cmico, indagou:  Quem foi que lhe disse que nunca estudo de manh?
	Voc mesma, ora.
As trs riram. Mas Cassie voltou a insistir.
	Bem, eu poderei dormir at mais tarde, amanh. Mas vocs duas tero de entrar s oito, no trabalho... Certo?
De fato, tanto Janette quanto Samantha trabalhavam na biblioteca municipal da cidade. Janette, como bibliotecria e, Samantha, como secretria.
	No acham melhor dormir mais cedo, para acordarem mais dispostas, amanh?  Cassie argumentou.
	Quem quer saber do dia de amanh?  Samantha retrucou, com ar maroto. Lanando um olhar ao redor, acrescentou:  A propsito, voc reparou que hoje o Last Pub est mais lotado do que o costume?
	Realmente, para uma quarta-feira, o movimento est bastante intenso  Cassie concordou, pensativa.
	E sabe por qu, meu bem?  Janette sorriu.  E que hoje recebemos o time de beisebol da Universidade de Los Angeles.
	Eles foram visitar vocs?  Cassie surpreendeu-se.
	No, minha doce criana  Samantha respondeu, divertida.  Eles foram conhecer a biblioteca pblica de nossa cidade. E como ns trabalhamos l...
	Claro  Cassie assentiu, compreendendo. Desde que tinha chegado ao Last Pub, vira vrios rapazes desconhecidos cumprimentarem Janette e Samantha. Mas conhecia ambas o suficiente para saber que no se interessariam por eles. Janette e Samantha tinham vinte e trs e vinte e quatro anos, respectivamente. E sempre diziam preferir homens mais velhos, a rapazes.  Pelo que pude perceber, aqueles garotos so bastante jovens.
	Devem ter entre dezoito e dezenove anos  Samantha opinou.  No mximo, vinte.
Cassie olhou de uma para a outra:
	Ora, no me diga que vocs esto interessadas em algum deles.
	Em algum, no  Janette respondeu, com um toque de malcia.  Em vrios!
	Mentirosa!  Cassie riu, divertida. E as duas a acompanharam.  Falando srio, meninas, estou realmente com
vontade de retirar.
	Ainda  cedo, garota. Alm do mais...  Janette interrompeu-se, enquanto arregalava os olhos, numa expresso de espanto.  Minha nossa! Quem  aquele pedao de mau caminho em forma de homem, que acaba de entrar no recinto?
	Voc hoje est impossvel!  Cassie exclamou, sem olhar na direo indicada pela amiga.
Samantha, porm, voltou-se para a entrada do bar. E concordou, de imediato, com Janette.
	Voc tem razo, menina. Ele  de arrasar, mesmo!
	O que h com vocs duas, afinal?  Cassie protestou, aborrecida.  Esto carentes demais, s pode ser isso.
	Veja voc mesma, e diga se no temos razo.
Cassie voltou-se e quase perdeu o flego.
	Blake!  exclamou, com voz abafada.
	Voc sabe o nome dele!  Janette fitou-a, surpresa.
	Sim. E vocs tambm o conheceriam, se tivessem ido almoar em casa, naquele domingo  Cassie respondeu, com os olhos fixos em Blake.
De fato, Cassie havia convidado Janette e Samantha para almoar, cerca de trs semanas atrs, quando Olive fizera aniversrio. Blake era um dos convidados e Cassie queria apresent-lo s amigas. Mas como ambas tinham ficado de planto, na biblioteca, no puderam comparecer.
	Ento ele  o famoso Blake Campbell...  Samantha murmurou, encantada.
	Por que famoso?  Cassie indagou.
	Ora, porque voc fala dele o tempo todo  Janette interveio.
	Nem tanto  Cassie discordou, confusa. No esperava ver Blake no Last Pub. Aquele no era o tipo de barzinho que Blake costumava frequentar. Em geral, ele preferia restaurantes sofisticados.
	Agora entendo porque nossa querida Cassie faz questo de ficar linda, s quartas-feiras  Janette comentou, com ar zombeteiro.
	Ela quer impressionar aquele semideus  Samantha gracejou.
	Ora, parem com isso, sim?  Cassie ordenou, enrubescendo violentamente.
	Veja s como ela corou, Samantha  disse Janette, com ar zombeteiro.  E no  para menos!
	Escutem aqui, suas traidoras...  Cassie olhou de uma para a outra.  Vocs sabem muito bem como me sinto, a respeito de Blake. E no admito que brinquem com meus sentimentos.
Cassie j havia confidenciado, s amigas, o quanto amava Blake. Fizera isso pouco tempo atrs, numa noite em que se sentia terrivelmente angustiada e necessitava desabafar.
	Desculpe, amiga  Janette retratou-se, num tom sincero.  No queremos ofend-la.
	Estamos brincando para aliviar a tenso  Samantha afirmou.
	E quem est tensa?  Cassie retrucou.
	Eu  que no sou  disse Janette.
	Nem eu...  Samantha secundou-a. Agora, querida, sugiro que pare de apertar a mesa, antes que ela grite...
S ento Cassie deu-se conta de que estava segurando a borda da mesa com tanta fora, a ponto de seus dedos tornarem-se esbranquiados.
	Droga  resmungou, deixando que as mos lhe cassem sobre o colo.
	Quer um gole, para relaxar?  Janette ofereceu-lhe seu chopp.
	 uma boa ideia  Samantha aprovou.
	No, obrigada  Cassie recusou.  Nessas horas, o lcool s atrapalha. Alm do mais, hoje sou a motorista de vocs, lembram-se?
	Um trago no lhe far mal. 
	Agradeo, mas realmente...
	No entendo por que voc ficou to nervosa  Samantha a interrompeu.  Afinal, se Blake veio at aqui,  porque deseja v-la.
	Isso deveria deix-la feliz  Janette opinou. 
	 que vocs nem imaginam como foi nosso encontro, hoje  tarde.
	E o que voc est esperando, para nos contar?  Ja nette indagou, com os olhos brilhantes de curiosidade.
	Agora no d mais tempo  Cassie respondeu, com o corao aos saltos. Seus olhos encontraram os de Blake, que at ento havia ficado parado  entrada do bar, observando o ambiente.  A vem ele. E, por favor, nada de brincadeiras, meninas.
	Fique tranquila  Janette recomendou. E com seu bom humor habitual, acrescentou:  Somos garotas de fino trato. Sabemos nos comportar diante de um cavalheiro.
	Assim espero.  Cassie suspirou, tentando controlar as batidas do corao, que saltava-lhe no peito como um pssaro assustado. De repente, ocorreu-lhe uma terrvel suspeita... A presena de Blake, ali, s podia significar uma coisa: algo de ruim havia acontecido, em sua casa. No havia outro motivo, poderoso o suficiente para lev-lo a um local que ele nunca frequentava.
A menos que Blake tivesse urgncia em conversar com ela, Cassie ponderou. Mas, para isso, ele certamente esperaria at o dia seguinte.
Levantando-se de um salto, Cassie dirigiu-se ao encontro do homem a quem tanto amava. Usando cala caqui e camisa branca, de mangas arregaadas, com os cabelos negros a emoldurar-lhe o rosto de traos perfeitos... Ele parecia mais belo e atraente do que nunca. Mas Cassie estava nervosa demais para pensar nisso. S conseguia fazer conjeturas terrveis sobre a razo que levara Blake at ali.
	O que houve?  ela perguntou, elevando a voz, para ser ouvida em meio ao burburinho e  msica dos Rolling Stones, que vinha das caixas de som.
	Preciso conversar com voc  disse Blake, fitando-a com ansiedade.
	Aconteceu alguma coisa?  Cassie indagou, enquanto sua tenso chegava ao mximo.  Olive e Alexander esto bem?
	Sim. Alis, falei com Olive agora h pouco. Foi ela quem me contou que voc estava aqui.
	Ento, qual  o problema?
	Nenhum.  Blake sorriu, mas era evidente que estava nervoso.  Apenas, precisamos conversar.
	Sobre o qu?
	Eu lhe direi, assim que sairmos daqui. Voc... pode me acompanhar?
	Preciso pegar minha bolsa.  Cassie apontou em direo  mesa, de onde Janette e Samantha a observavam atentamente.
	Ento, vamos.  Blake a seguiu.
Cassie aproximou-se da mesa, a passos largos. Pegou a bolsa a tiracolo, que havia deixado sobre a guarda da cadeira, e ajeitou-a nervosamente sobre o ombro. Era intil tentar disfarar a apreenso que a presena de Blake no Last Pub lhe causava. Mesmo assim, ela esforou-se ao mximo para aparentar calma e segurana, ao fazer as apresentaes:
	Meninas, este  Blake Campbell, a quem vocs j conhecem de nome. Blake, estas so Samantha e Janette, minhas amigas.
Blake cumprimentou-as com respeito e simpatia. Em seguida, virou-se para Cassie:
	Podemos ir, agora?
	Sinto muito, mas fiquei de levar minhas amigas em casa  ela lembrou-se, de sbito.
	V tranquila  disse Janette.  Ns tomaremos um txi.
	Mas combinamos que...
	Esquea, querida,  Samantha a interrompeu.  E no se preocupe conosco.
	Est bem  Cassie aquiesceu. Despediu-se de cada uma com um beijo na face e agradeceu:  Obrigada, meninas. E quanto  conta...
	Ns acertaremos.  Janette sorriu, como se quisesse lhe dar foras.  Pode ir, garota.
Pouco depois, Cassie deixava o Last Pub, seguida por Blake.
O estacionamento parecia estranhamente silencioso, em comparao com o alto som do interior do bar.
	Onde est seu carro?  Blake perguntou.
	Logo ali.  Cassie apontou seu Escort, a poucos metros de distncia.  E o seu?
	Deixei-o na rua, quase em frente ao bar.
Naquele momento, Cassie viu um jovem casal saltando de uma Ferrari preta. Ambos pareciam muito felizes, alheios ao mundo ao redor. Passando por ela e Blake, caminharam, abraados, em direo  entrada do Last Pub.
Um sentimento de tristeza invadiu Cassie. O rapaz e a garota deviam ter quase a mesma idade. Talvez ele fosse um ou dois anos mais velho do que ela. Mas os dois aparentavam cerca de vinte anos.
"Por que sou to diferente?", Cassie perguntou-se. "Por que no me apaixono por algum da minha gerao, em vez de entregar meu corao a um homem que quase poderia ser meu pai?"
Mas o amor no tinha idade... Movia-se por razes que escapavam ao raciocnio e  sensatez. Cassie sabia disso, apesar de ser to inexperiente, no campo afetivo.
	Voc conhece o Gary-House?  Blake perguntou, interrompendo-lhe o fluxo de pensamentos.
	Todo mundo j ouviu falar desse restaurante, que  um dos mais sofisticados da cidade. Sei onde fica, mas nunca entrei l.
	Bem, para tudo existe uma primeira vez.  Blake a fitava com intensidade.
E parecia to tenso, Cassie notou, com estranheza.
	Que tal irmos at l?  ele props.
	Ao Gary-House?  ela indagou, surpresa.
	Sim.
	Mas por qu?
		E por que no?  ele retrucou.  Preciso conversar
com voc. E o ambiente do Gary-House me parece calmo o suficiente, para o que tenho a dizer. Nada de msica barulhenta, nada de agitao, enfim.
	Voc deve ter detestado o ambiente do Last Pub, no?
 Cassie perguntou, apontando o bar que ambos haviam deixado para trs.
	No faz o meu estilo. Mas, enfim, h bares para todos os gostos.  E Blake pareceu hesitante, ao indagar:  Voc vem aqui com frequncia?
	Depende do estado de esprito.  Cassie forou um sorriso.  Mas no fique to chocado com o Last Pub. Se voc chegasse daqui a uma hora, poderia assistir ao show de um bom grupo de jazz.
	Se eu soubesse, teria me atrasado...  Blake tentava gracejar, mas seu nervosismo era evidente.
Cassie no se sentia menos inquieta. Era estranho estar ali, no estacionamento do Last Pub, conversando com Blake... Sobretudo depois da discusso que ambos haviam tido,  tarde.
	Diga-me  ela perguntou , voc no est aborrecido comigo?
Em vez de responder, Blake apenas insistiu:
	Vamos ao Gary-House. L poderemos conversar.
Cassie hesitava:
	Prometi a Olive que estaria em casa por volta de meia-noite.
	Ela sabe que vim procur-la. Portanto, no se preocupar se voc demorar um pouco mais, para chegar.
	Se  assim...  Cassie cedeu.  Eu o seguirei, em meu carro.
	Certo.
Cerca de vinte minutos depois, ambos entravam no Gary-House, um ambiente totalmente diverso do Last Pub.
Logo de incio, Cassie percebeu que Blake era um cliente habitual, pois o maltre e os garons o tratavam com deferncia, alm de simpatia.
	A mesa de sempre, sr. Campbell?  perguntou o matre, num tom solcito.
	Sim, por favor  Blake respondeu, com um sorriso. 
 Obrigado.
O maitre lanou a Cassie um cumprimento polido. E conduziu ambos a uma mesa, num terrao, de onde se descortinava uma bela vista da cidade.
	Voc quer jantar, Cassie?  Blake ofereceu, enquanto se acomodavam.
	No, obrigada. Mas aceitarei um cooler.
	De que sabor, senhorita?  o maitre indagou.
	Uva.
	O mesmo para mim  disse Blake.
O maitre afastou-se para providenciar os pedidos e Cassie comentou:
	Puxa, no pensei que voc gostasse de cooler.
	E por que no?  o refrigerante ideal, para esta noite agradvel... E com baixo teor alcolico.
	Achei que voc preferisse bourbon.
	J tomei um, hoje  noite.
	E no quer outro?
	Se eu quisesse, pediria.
- A menos que esteja bebendo cooler s para no dar mau exemplo  garotinha Cassie...  ela o provocou.
	Pelo que entendi, hoje  tarde, voc j no  mais uma criana  ele retrucou, num tom srio.
	Ora, graas!  Ela sorriu, nervosamente.  At que enfim voc comea a entender esta verdade to simples...
O maitre aproximou-se, com duas garrafas de cooler e copos de cristal. Serviu ambos com ar solcito e afastou-se.
	Sade!  disse Blake, erguendo seu copo, num brinde.
	A nossa.  Cassie fez seu copo tilintar contra o de Blake.
Ambos saborearam a bebida em silncio, por alguns instantes. Ento, Blake declarou:
	Gostei de suas amigas. Pareceram-me timas garotas.
	Quer dizer que daqui por diante voc no mais pensar que costumo andar por a com um bando de jovens rebeldes e depravados?  Cassie o fitava com ar maroto.
Para sua surpresa, Blake sorriu.
	Voc parece ter um imenso prazer em me provocar, no  mesmo?
	Ora, no seja to dramtico. Eu apenas fiz um gracejo, s isso.
	E tambm estava brincando, hoje  tarde, quando ficou defendendo aquelas ideias malucas a respeito de sexo e casamento?
	No  ela respondeu, desviando o rosto.
	Quer dizer que continua disposta a cometer o pior erro de sua vida?  ele indagou, num tom severo.
Cassie baixou os olhos.
	Olhe para mim... por favor.  Blake pediu, num tom que soava como splica.  Diga que aquela conversa foi uma brincadeira, uma forma de me provocar.
Erguendo o rosto, Cassie fitou-o no fundo dos olhos castanhos... E sentiu-se mortificada. Havia tanta ansiedade, na expresso de Blake, que ela se compadeceu. Seu corao disparou e o rubor subiu-lhe s faces. Por que aquele homem era to atraente? Por que fora se apaixonar justamente por Blake Campbell?
Por um momento, ficou tentada a confessar-lhe a verdade, a dizer que tudo o que desejava, no mundo, era ser amada por ele... Mas conteve-se. No suportaria que Blake a olhasse com a complacncia de um irmo mais velho para com a irm menor, depois de ouvir sua declarao de amor. E era mais do que certo que ele faria isso, pois no a enxergava como mulher.
"O jogo j foi feito", Cassie pensou. "No vou recuar, agora."
Afetando uma segurana que estava longe de possuir, ela o encarou, com ar de desafio, antes de retrucar:
	Diga-me, Blake Campbell, voc me trouxe at aqui s para retomar o assunto de nossa discusso de hoje  tarde?
	De certo modo, sim  ele admitiu, com uma expresso de tamanho desalento, que o remorso de Cassie redobrou
de intensidade.  Eu no conseguiria dormir, hoje, se no viesse conversar com voc.
	Mas o que, afinal, voc tem a dizer, Blake?
	Quero que voc reconsidere sua deciso.
	Impossvel.
	Ento, que d tempo ao tempo.
	Como assim?
	Espere ao menos um ano, at dar esse passo que, sem dvida alguma, ser definitivo em sua vida.
	E por que eu esperaria todo esse tempo, para fazer o que quero?
	Voc deseja, tanto assim, casar-se e fazer sexo?
	Eu quero  viver. E quanto antes comear, melhor.
 Cassie tomou mais um gole de coler. Mas apesar da bebida refrescar-lhe a garganta, sua alma continuava queimando de paixo. Esse fogo, ningum poderia aplacar. Ningum, exceto o homem que tanto amava. Mas essa possibilidade parecia to remota quanto as estrelas que brilhavam no cu da primavera em Heaven City.
Um longo momento de silncio se passou. Por fim, Blake perguntou, numa voz estranhamente calma:
	E sua ltima palavra, Cassie?
	Pode apostar nisso.
	Voc est, realmente, disposta a desposar o primeiro homem que surgir  sua frente?
	Sim.  Ela engoliu em seco.
	Pois bem... Voc est olhando para ele.
	O que disse?  ela indagou, sem entender.
	Voc procurava um pretendente, certo, Cassie Warrington?  Os olhos castanhos de Blake pareciam devassar-lhe a alma.  Pois bem... Aqui estou.
	Que brincadeira  essa?  ela reagiu, confusa.
Blake levou alguns instantes para dizer:
	Voc estava brincando, quando disse que ia se casar com o primeiro pretendente que aparecesse?
	No.
	Pois eu tambm no estou.
Inclinando-se em sua direo, Cassie murmurou:
	Blake, deixe-me entender...
	No h nada para entender, minha cara.  Ele afastou os braos, num gesto largo, enquanto a fitava no fundo dos olhos.  Voc quer um marido, no ? Pois estou me candidatando ao papel. E ento, o que me diz?
CAPITULO V

	V im o mais depressa que pude  disse Janette, ao entrar na East Coast, uma lanchonete prxima  Biblioteca Municipal de Heaven City.
	Obrigada por atender meu pedido, amiga  Cassie agradeceu.
Fitando-a com ateno, Janette comentou:
	Puxa, voc est com uma aparncia terrvel.
	Agradeo sua sinceridade  Cassie respondeu, com amarga ironia.
	Oh, desculpe...  Janette sentou-se  mesa.  Sou mesmo uma desastrada, no  mesmo? Ainda no aprendi a pensar, antes de abrir a boca...
	No se preocupe.  Com um gesto nervoso, Cassie afastou da testa uma mecha de cabelos negros.  Devo estar horrvel, mesmo, pois no consegui dormir sequer por um minuto,  noite. E passei uma manh pssima.
Um garom aproximou-se, com ar solcito, trazendo o cardpio.
	Vamos almoar?  Janette props.  Estou faminta.
	Quanto a mim, no sinto o menor apetite.
Fitando-a com preocupao, Janette.indagou:
	Voc ao menos tomou caf da manh, hoje?
	Comi bem pouco.  Cassie suspirou, desalentada.  E ainda ouvi um longo sermo de Olive, por causa disso.
	E ela tem toda a razo, garota.  Janette abriu o cardpio.  Bem, acho que vou pedir seu prato predileto:
fil de peixe com...
	Nem pensar  Cassie a interrompeu.  J disse que no tenho fome.
	Mas voc precisa se alimentar, garota!
	Tudo bem.  Voltando-se para o garom, Cassie pediu:
 Quero uma vitamina completa, com cereais.
	Isto no  almoo, querida  Janette advertiu-a, num tom carinhoso.
	Mas  tudo que conseguirei comer, agora.
	Est bem  Janette cedeu. Pediu salada mista e fil de frango. E quando o garom afastou-se, fitou Cassie com ar
penalizado.  O que houve, menina? Voc parece arrasada.
Em vez de responder, Cassie lanou um olhar ansioso, em direo  entrada da lanchonete:
	Ser que Samantha no vem?
	Ela esteve numa reunio com a chefia, durante boa parte da manh  Janette explicou.  Deixei um recado sobre sua mesa de trabalho. Tenho certeza de que Samantha vir, assim que puder.
Cassie tornou a suspirar.
	Preciso tanto de vocs duas, neste momento.
	Voc precisa  desabafar. Fale comigo, conte-me o que aconteceu.
Cassie baixou os olhos, enquanto .lutava contra uma irresistvel vontade de chorar. Mas j havia chorado demais, durante a noite. E nem por isso conseguira sair do estado de confuso e angstia em que se encontrava.
	Aposto que essa tristeza tem algo a ver com Blake Campbell, no  mesmo?
	Tudo a ver  Cassie respondeu, num fio de voz.
	Veja! Samantha acaba de chegar.
A lanchonete East Coast ficava a apenas trs quarteires da Biblioteca Municipal de Heaven City. Era frequentada, em geral, por funcionrios que trabalhavam nas proximidades. O movimento mais intenso ocorria na hora do almoo. A noite, a maior parte do pblico era formada por estudantes e frequentadores de um clube, que ficava nas proximidades.
	Al, meninas  Samantha saudou ambas, com um largo sorriso. Mas ao reparar melhor em Cassie, espantou- se:  Santo Deus, o que h com voc?
Antes que Cassie respondesse, o garom aproximou-se para atender Samantha que, sem sequer olhar o cardpio, encomendou duas panquecas e uma gua mineral com gs, Quando o garom se afastou, Samantha tomou a mo de Cassie entre as suas. Em seguida, lanou um olhar interrogativo a Janette, que com uma expresso aflita, explicou:
	Ela no me contou nada, ainda.
	Queria esperar por voc, Samantha  disse Cassie.
 Assim, no teria de narrar essa histria triste por duas vezes...
	Que histria, querida?  Antes que Cassie respon
desse, Samantha recordou-se:  Voc saiu com Blake, ontem, no foi?
	Isso mesmo  Cassie respondeu, com voz embargada.
	E vocs... discutiram?  Samantha perguntou.
	No exatamente.
	Mas voc est triste, assim, por causa dele, no  mesmo?
	Sei l.  Cassie sufocou um soluo.  Talvez a culpa de tudo seja minha, afinal.
	Culpa de qu, meu bem?  Janette indagou, suavemente, enquanto acariciava os cabelos negros de Cassie, num gesto de solidariedade.  Fale de modo mais claro.
Cassie tomou flego. Contendo a custo a vontade de chorar, conseguiu narrar a conversa que tivera com Blake, no Gary-House.
Samantha e Janette ouviram tudo com uma expresso atenta, vez por outra trocando olhares significativos ou aflitos.
O garom chegou com os pedidos, interrompendo a conversa. E foi somente quando ele se afastou que Janette, arregalando os olhos, fitou Cassie com perplexidade. Samantha no parecia menos espantada.
	Por que esto me olhando assim?  Cassie indagou, confusa.
Um longo momento de silncio se passou. E Janette foi a primeira a quebr-lo:
	Deixe-me ver se entendi bem...Blake Campbell a pediu em casamento, certo?
	Exato.
	E voc simplesmente... recusou?
	Nem sequer respondi  disse Cassie, com os olhos
rasos de lgrimas.  Apenas, comentei que estava muito tarde e que eu precisava ir embora. Sa quase correndo e
fui para casa.
	Voc fugiu  Janette sentenciou.  Foi isso?
	Pode-se dizer que sim.
	Fugiu depois de receber uma proposta de casamento do homem a quem voc ama?  Sem esperar pela resposta, Janette indagou:  Por que raios agiu desse jeito? Voc enlouqueceu?
	No fale assim com ela  Samantha pediu a Janette.
	No v como a pobrezinha est abalada?
	Tudo bem, perdoem-me se estou parecendo grosseira 	Janette desculpou-se.  E que no consigo entender a
atitude de Cassie.
	Mas eu, sim  Samantha sentenciou, ajeitando os cabelos loiros atrs das orelhas. : Cassie  jovem demais para se casar. Por isso, fugiu da conversa... Talvez pensando numa maneira de dizer a Blake que  melhor esperarem um pouco mais, para oficializar a unio...
	Acontece que Cassie ama aquele homem!  Janette insistiu.  E uma mulher apaixonada jamais retardaria o momento de ser feliz.
Cassie sorveu um gole de sua vitamina, embora no sentisse o menor apetite. S ento disse:
	Sinto muito, mas nenhuma de vocs est entendendo o motivo de minha angstia.
	Ento, explique melhor o que est havendo, querida. Abra seu corao.
	 exatamente isso que quero fazer  Cassie declarou, com a voz embargada pela amargura.  Por que acham que eu as chamei, com tanta urgncia?
	Desabafe, querida  Janette recomendou, num tom carregado de carinho.
	E pode contar com nosso apoio  Samantha afirmou.
	Eu sei que sim.  Cassie sorveu mais um gole de
sua vitamina, no porque tivesse vontade, mas porque de repente sentia-se muito fraca. Precisava alimentar-se, para no ceder  depresso.
Num silncio respeitoso, Janette e Samantha comearam a almoar. Sabiam que Cassie precisava de tempo e no queriam pression-la. Por fim, ela conseguiu foras para falar:
	Para que vocs entendam a terrvel situao em que me encontro, no momento, terei de contar sobre meu encontro com Blake, ontem  tarde, no escritrio da Warrington Construction.  E Cassie narrou sua ida  empresa, no dia anterior.
	Mas voc disse mesmo a ele que queria perder a virgindade com o primeiro pretendente que aparecesse?  Samantha indagou, perplexa.
	Exato  Cassie confirmou.  E falei, tambm, que s me entregaria depois de despos-lo.
	Decididamente, nossa amiga enlouqueceu  Janette comentou, entre confusa e aflita.  O que deu em voc, para fazer essa cena lamentvel diante de Blake Campbell? Em vez de conquist-lo, deixou-o horrorizado, com ideias nas quais voc nem sequer acredita.
	No seja to dura com Cassie  Samantha pediu.
	No tenho a menor inteno de mago-la  Janette justificou-se. Apenas, quero compreender o que est acontecendo.
Num tom suave, Samantha perguntou a Cassie:
	Afinal, por que fez isso? Por que fingiu ser uma garota frvola e inconsequente, quando na verdade  uma pessoa absolutamente romntica?
	E ns sabemos disso muito bem  Janette declarou.
 Portanto, nem tente nos convencer do contrrio.
 Oh, sim, vocs sabem  Cassie comentou, com profunda amargura.  Mas Blake nem sequer desconfia de que j me tornei uma mulher. Para ele, continuo sendo uma garotinha levada, que necessita de proteo, carinho e, de vez em quando, de alguns puxes de orelhas.
	Acho que estou comeando a entender aonde voc quer chegar  Samantha declarou, pensativa.  Voc fez aquela cena, ontem, apenas para chocar Blake. Foi isso?
	Sim  Cassie confirmou.
	E conseguiu  Janette opinou.  Mas continuo sem entender porque voc fez isso.
	Para que Blake reparasse em mim, ora  Cassie confessou, com voz trmula.  Voc ainda no percebeu? Eu queria que ele me enxergasse como mulher, que compreendesse que sou perfeitamente capaz de tratar de assuntos to srios quanto sexo e casamento.
	Mas voc abordou esses temas de um modo lamentvel, querida  Janette comentou, meneando a cabea.  Voc queria subir no conceito de Blake e tudo o que conseguiu foi...
	Um pedido de casamento  Samantha completou.
	 mesmo!  Janette exclamou, surpresa.  V se entender os homens...  Sorrindo para Cassie, acrescentou:
 Bem, suas manobras no foram nada infrutferas, afinal. Agora, voltarei  minha primeira pergunta:  Por que no est feliz com esse pedido de casamento, se era exatamente esse o seu objetivo?
Cassie meneou a cabea, sentindo-se de novo  beira das lgrimas.
	Voc est enganada, Janette. Eu queria o amor de Blake... E no sua piedade.
	Ora!  Janette espantou-se.  E o que a faz pensar que ele se sente assim, com relao a voc?
	E tudo muito bvio  Cassie respondeu, engolindo em seco.
	Acho que estou entendendo  disse Samantha.
	Ento, explique-me, pois continuo to confusa quanto antes.
	E muito simples...  Cassie resumiu.  Blake resolveu me propor casamento, por pura piedade. 
	Esta parte voc j contou, querida, mas continuo na mesma - Janette olhou de uma para outra, antes de acres
centar:  Puxa, ser que sou to estpida, a ponto de...
	No se trata disso  Samantha a interrompeu. Voltando-se para Cassie, opinou:  E creio que voc esteja exagerando, ao classificar como piedade os sentimentos de Blake.
	No vejo outro motivo, para explicar a atitude dele, ontem. Blake resolveu se casar comigo, no porque me ame,
e sim...
	Para evitar que voc se entregue a outro homem, a algum que talvez seja inescrupuloso e que a magoe pro
fundamente  Samantha concluiu.
Cassie interrompeu o gesto de levar aos lbios o copo de vitamina.
	Isso faz algum sentido  reconheceu, surpresa.
	Na verdade, isto esclarece tudo, meu bem  Samantha argumentou.
	Escute, Cassie, no quero parecer chata, mas o fato  que voc no respondeu minha pergunta  Janette interveio.  De onde tirou a ideia de que Blake sente piedade por voc?
	At agora, eu achava que ele tinha percebido o quanto o amo. E que, por pura pena, resolveu propor-me casamento.
Mas agora vejo que a hiptese de Samantha  mais consistente.
	Claro, querida  Samantha afirmou, com veemncia.
	Pense bem: voc  uma garota rica, bonita, encantadora, inteligente e...  Aps uma pausa de efeito, ela finalizou:
	a nica herdeira da Warrington Construction. Se de repente sair por a, afirmando que desposar o primeiro pretendente que aparecer...
	Mas eu no fiz isso  Cassie defendeu-se.  Na verdade, s defendi essa ideia maluca para chamar a ateno de Blake.
	Certo  Samantha assentiu.  Ns sabemos disso, mas ele, no. E como foi que Blake se sentiu, quando voc deixou o escritrio dele, ontem  tarde?  Sem esperar pela resposta, ela continuou:  Blake certamente pensou: "Minha nossa, se Cassie levar adiante essa deciso, acabar por entregar-se a um oportunista, que alm de feri-la profundamente depredar o nome e o patrimnio deixado por Henry Warrington, em pouco tempo."
	Tem razo!  Janette concordou, levando a mo  testa. Voltando-se para Cassie, comentou:  Voc o deixou louco de tanta preocupao, querida. No   toa que ele foi procur-la, ontem  noite, no Last Pub.
	Blake queria evitar o pior  Samantha opinou.  Por isso a pediu em casamento... Antes que algum aventureiro o fizesse.
	Este  o problema  Cassie murmurou, afastando de si o copo de vitamina, ainda pelo meio.  O motivo que levou Blake a me fazer essa proposta nada tem a ver com amor. E  isso que me deixa deprimida... Como vocs podem ver, acabei caindo em minha prpria armadilha.
Janette e Samantha assentiram, com gravidade. Por um longo momento, ambas mantiveram-se caladas. Saboreando o almoo, pareciam pensar numa sada para a situao.
Cassie, por sua vez, sentia-se pssima. Quisera chamar a ateno de Blake, mas fracassara redondamente.
Samantha e Janette terminaram a refeio. O garom aproximou-se, para retirar os pratos, copos e talheres. Janette pediu-lhe a conta e, quando ele afastou-se, lanou um olhar furtivo ao relgio. O gesto no passou despercebido a Cassie que, mortificada, concluiu:
	Estou tomando o tempo de vocs, no  mesmo?
	Ora, imagine, querida  Samantha confortou-a.  Estamos em nossa hora de almoo, lembra-se?
	Detesto perturb-las com meus problemas. Mas, sinceramente, eu no tinha a quem recorrer.
	Amigas so para essas coisas, meu bem  disse Janette, num tom carinhoso.  No se preocupe conosco.  De sbito, seu rosto iluminou-se.  Puxa! Acabo de ter uma ideia magnfica!
	Diga  Cassie pediu, sem o menor entusiasmo.
	Pensem bem, meninas...  Janette estava eufrica.
 A situao no  to terrvel quanto est parecendo.
	Como assim?  Samantha indagou, curiosa.
Radiante, Janette exps seu ponto de vista:
	No momento, Cassie tem duas alternativas: aceitar, ou no, o pedido de casamento de Blake Campbell... Certo?
	Engano seu, amiga  Cassie afirmou, com um sorriso amargo.  No tenho opo alguma.
	Como no?  Janette retrucou.
	No posso aceitar que Blake se case comigo sem amor.
Terei de recusar a proposta.
	Mas rejeitar o homem a quem voc ama ser, no mnimo, uma grande loucura.
Uma lgrima furtiva escorreu pelo rosto de Cassie. Enxugando-a com um gesto nervoso, ela sentenciou:
	Para que um casamento seja bem-sucedido,  necessrio que duas pessoas se amem... E este, infelizmente, no  o caso.
	Por enquanto, no.  Janette piscou-lhe um olho, com ar cmplice.  Mas se voc aceitar o pedido de Blake, ter chance de conviver estreitamente com ele... E de conquistar seu corao.
	Ser?  Cassie duvidou.
	Oh, certamente que sim!  Samantha exclamou, entusiasmada. E sorrindo para Janette:  Amiga, voc  um gnio. Como esposa de Blake, nossa querida Cassie ter todas as chances de provar-lhe que j  uma pessoa adulta, encantadora, solidria...
	E sensual!  Janette completou, com ar maroto.
	Parem com isso  Cassie ordenou, desalentada.  O momento  imprprio para brincadeiras.
	Pois saiba que estamos falando muito a srio  Janette retrucou, categrica.  Case-se com Blake Campbell, amiga.
E no poupe seu charme, ouviu bem? Prove que  a mulher com quem ele sempre sonhou.
	Vocs perderam o juzo.  Cassie meneou a cabea.
 Esto completamente loucas, s pode ser isso.
	Se voc pensar bem, chegar  concluso de que nossa sugesto  muito sensata  Samantha argumentou.  Diga-me, Cassie, com que frequncia voc costuma ver Blake?
	Todas as quartas-feiras e voc sabe disso muito bem. s vezes nos encontramos, tambm, nos fins de semana, por ocasio de algum almoo em minha casa, ou na dele.
	E voc acha que essa frequncia  suficiente para conquistar um homem?  Samantha questionou-a.
	Claro que no  Janette interveio e voltou-se para Cassie.  Em contrapartida, se voc responder sim  proposta de Blake, vai t-lo inteirinho, s para si, todos os dias... E tambm s noites,  claro  acrescentou, num tom zombeteiro.
	Nem tanto  Cassie discordou, sem atentar para a brincadeira da amiga.  Blake passa o dia todo na Warrington Construction e s vezes faz horas extras, at bem tarde.
	De qualquer forma, voc ter muito mais chance de conquist-lo, se viver sob o mesmo teto que ele.
	Afinal, no era isso que voc tanto queria?
	No sei...  Cassie passou a mo pelos cabelos negros, num gesto de tristeza e desalento.  Eu sonhava em ser notada por Blake. Queria que ele se interessasse por mim, que me convidasse para sair... No como sua irmzinha caula, mas como... mulher.
	Pois, ento, trate de pr mos  obra. Aceite o pedido de casamento e comece a conquist-lo.
	Mas meu amor-prprio ficaria irremediavelmente ferido, a cada momento em que eu me lembrasse que Blake no me ama de verdade  Cassie protestou, com a voz embargada pela amargura.
	Ora, no seja to orgulhosa, amiga  Janette aconselhou..
	No se trata de orgulho e sim de auto-estima  Cassie replicou.
	Muito bem...  Janette fitou-a com severidade.  E como ficar sua preciosa auto-estima, se Blake se interessar por outra mulher?  Antes que Cassie reagisse, ela acrescentou:  Pois ser exatamente isso que acontecer, se voc recuar, agora.
Mais dia, menos dia, algum acabar por despertar o interesse daquele homem. E voc ter perdido sua chance de ser feliz.
Essa frase ainda ecoava na mente de Cassie, no meio da tarde, enquanto ela andava de um lado a outro de seu quarto, a mente assolada por uma srie de dvidas.
Tinha acabado de tomar uma ducha e usava, sobre o corpo, apenas um roupo branco, atoalhado.
Ao chegar em casa, depois do encontro com Janette e Samantha, encontrara, sob a porta da sute, um recado de Olive: Blake havia ligado por duas vezes. E pedia-lhe que entrasse em contato, o mais depressa possvel.
Agora, Cassie tentava clarear as ideias, antes de tomar uma atitude, que sem dvida seria definitiva. Quanto mais refletia, mais sentia-se tentada a acatar a opinio de Janette e Samantha. Se desposasse Blake, talvez tivesse uma chance de fazer-se notar por ele. Mas se respondesse no, tudo continuaria como antes... E essa perspectiva parecia-lhe insuportvel.
Parando diante do guarda-roupa, no quarto, Cassie abriu-o de par em par. Remexendo nervosamente nos trajes pendurados nos cabides, perguntou-se qual seria o mais adequado, para um encontro com Blake Campbell... E ento compreendeu que, de certo modo, j havia tomado uma deciso.
Acabou optando por um vestido de seda, estampado com motivos florais, no qual predominava o tom verde-gua. Era ideal para a tarde de primavera.
O decote arredondado pedia um complemento, Cassie concluiu, dirigindo-se ao toucador e pegando sua caixa de jias. Escolheu um finssimo cordo de ouro, com um pingente de esmeralda. Vestiu-se, ps a jia em torno do pescoo e mirou-se no espelho do armrio, que a refletiu de corpo inteiro. Aprovou o resultado e sentiu-se um pouco mais calma.
Aos vinte anos, prestes a atingir a maioridade completa, Cassie sabia-se bela e atraente. Aceitava o fato de ser bonita, como um presente generoso da natureza, mas nunca fora excessivamente vaidosa. Gostava de andar bem vestida, mas, ao contrrio de muitas garotas de sua idade, nunca passava horas diante do espelho, embelezando-se.
Naquele momento, porm, sentia-se tomada por um impulso irresistvel: o de verificar cada detalhe do traje escolhido, de escovar longamente os cabelos e, at, de aplicar uma maquiagem sobre o rosto... Coisa que ela raramente fazia.
Eram trs e quarenta da tarde, quando Cassie por fim terminou de se aprontar. E havia comeado a faz-lo por volta de trs horas. Levara quarenta minutos embelezando-se... para Blake Campbell.
	Sua grande tola  ela se repreendeu, sorrindo para a imagem refle tida no espelho. Mas tinha de reconhecer que o esforo valera a pena.
O modelo caa-lhe com perfeio, valorizando-lhe as curvas do corpo bem-feito. As sandlias brancas combinavam perfeitamente com o traje. Os cabelos, soltos, adornados com uma pequena presilha, com minsculas esmeraldas in-crustradas, emolduravam-lhe o rosto de traos perfeitos, realados pela maquiagem leve: apenas um pouco de brilho de cor natural nos lbios, e rmel.
	Hum...  Cassie continuava a sorrir.  At que no ficou mal.
No fundo, porm, sentia-se mais confiante.
	Onde vai, minha querida?  Olive perguntou, minutos depois, ao v-la descendo as escadas de mrmore, que conduziam ao andar trreo da manso.  Antes que Cassie respondesse, exclamou:  Puxa, voc est linda!
	Voc acha, mesmo?  Cassie deu um giro gracioso.
	Acho, no.  Olive sorriu.  Tenho certeza. Vai a alguma festa, meu bem?
	Vou visitar Blake.
	De novo?
	Sim. Temos um assunto a tratar.
	Pelo visto, deve ser algo muito srio, pois vocs j se viram ontem  tarde, e tambm  noite... Isso, sem contar que ele j ligou duas vezes, hoje.
	Sim, achei seu recado sob a porta de minha sute.
	E voc j ligou para ele?
	No. Vou fazer-lhe uma surpresa.
Olive observou-a com preocupao.
	Est havendo algum problema entre voc e Blake, querida?
	No  Cassie respondeu, vaga, enquanto desviava o rosto.
A velha senhora sorriu.
	Voc  uma pssima mentirosa, sabia?
Cassie fitou-a, embaraada, e ela prosseguiu:
	Mas j que no quer me contar o que est acontecendo, o que posso fazer?
	No se trata disso, Olive.  Cassie beijou-a, carinhosa mente, em ambas as faces.  Depois conversaremos, est bem?
	Voc sabe que sempre pode contar comigo... para tudo. 
	Sim, minha querida. Alis, no sei o que eu faria, sem voc e Alexander, para me apoiar.
A velha senhora sorriu, lisonjeada.
	Oh, voc no precisa de dois velhos rabugentos, em sua vida.
	Preciso, sim. E voc nem imagina quanto.  Com um aceno, Cassie despediu-se.  Mas agora preciso ir. At mais tarde.
	At, meu bem.
CAPITULO VI

Cassie saiu do elevador e caminhou pelo corredor de mrmore, em direo  sala da presidncia da Warrington Construction.
Dorothy, a secretria de Blake, recebeu-a com um sorriso cordial.
	Cassie, como vai?
	Tudo bem. E vocs?  indagou, apontando o ventre arredondado de Dorothy, grvida de cinco meses.
	Estamos indo s mil maravilhas.
	Que bom.  Cassie sorriu. Simpatizava bastante com a risonha Dorothy, que trabalhava para a Warrington Construction havia vrios anos.
Dorothy era uma mulher robusta, de rosto corado, cabelos loiros e cacheados. E possua uma qualidade admirvel, alm da eficincia: um constante bom humor.
	Blake est ocupado?  Cassie indagou, num tom que em nada denunciava a tenso que sentia. A autoconfiana que a habitava, ao sair de casa, fora se esgotando durante o trajeto at a Warrington Construction. Agora, ela estava mais frgil do que nunca.
	Sinto muito, querida  a secretria respondeu, num tom solcito.  Blake pediu para no ser interrompido, pois est estudando um projeto importante. Mas como se trata de voc...
"De sua futura esposa", Cassie a corrigiu, em pensamento.
	Vou avis-lo de sua presena  Dorothy anunciou, acionando o interfone.
Logo depois, Cassie entrava na sala particular de Blake.
	Com licena?
	Como vai, Cassie?  Ele fitou-a com evidente ansiedade.  Telefonei para voc duas vezes, hoje.
	Recebi seu recado.  Ela forou um sorriso.
	E por que no me retornou?
	Achei melhor v-lo pessoalmente.
	Foi uma tima ideia, pois precisamos conversar.  Apontando-lhe uma cadeira estofada, diante de sua mesa de trabalho, ele convidou:  Sente-se, por favor.
Cassie obedeceu, com o corao aos saltos. Sua pulsao estava to acelerada, que causava-lhe falta de ar.
	Est abafado, aqui dentro  ela comentou, com voz trmula.
	Quer que eu ligue o ar condicionado?  ele ofereceu.
	No  necessrio, obrigada. Preciso apenas de um pouco de ar fresco.  Levantando-se, Cassie caminhou at a janela, aberta totalmente. Debruou-se no peitoril e contemplou o centro da cidade, seis andares abaixo.
Blake observou-a, de costas, invadido por uma onda de ternura. O que tinha feito com a pobre Cassie, pensou, mortificado. Sem dvida a deixara assustada, ao propor-lhe casamento, de modo to abrupto.
	Voc deve estar furiosa comigo, no?  perguntou, constrangido, aps um longo momento.
	De modo algum  ela respondeu, voltando-se.
O que havia de diferente, em Cassie, naquela tarde?, Blake perguntou-se.
Ela parecia mais adulta... Mais... mulher. Talvez fosse o vestido, to fino e elegante... Ou o modo como havia prendido os cabelos negros, com aquela bela presilha... Ou mesmo a leve maquiagem que ela estava usando.
Mas todos esses artifcios de nada valeriam, sem uma postura interior, Blake pensou.
Decididamente, Cassie parecia ter crescido, transformando-se numa mais madura, desde a noite anterior.
	Por que est me olhando assim?  ela perguntou, com uma expresso inquieta nos olhos azuis.
	No sei  ele respondeu, como se hipnotizado.  Talvez esteja procurando a melhor forma de lhe pedir desculpas, por meu comportamento de ontem  noite.
	Voc agiu como o cavalheiro que .
	Nem tanto. Agi de maneira abrupta e grosseira. Por isso voc fugiu, daquele jeito.
	No foi sua atitude que me assustou, e sim sua proposta. 
"Oh, no", Blake pensou, engolindo em seco.
Estava acontecendo, de novo... Aquela onda de ternura transformando-se em infinito carinho, at chegar s raias do desejo. E ele simplesmente no sabia lidar com aquela emoo.
Aproximando-se, Cassie fitou-o no fundo dos olhos. E num tom de voz estranhamente calmo, indagou:
	Sua proposta ainda est em p?
A pergunta, feita de forma direta e simples, pegou-o de surpresa. E Blake no soube o que responder.
	Voc continua decidido a casar-se comigo?  ela insistiu, aps alguns instantes.
	Isso depende  ele balbuciou.
	Depende de qu?
	Se voc ainda estiver disposta a entregar-se ao primeiro homem que aparecer... Ento, minha resposta ser sim.
	Muito bem.  Cassie tomou flego. E chegou a pensar que sua voz no a obedeceria, ao perguntar:  Para quando marcaremos a cerimnia?
	Ento voc aceita?  Blake arregalou os olhos casta nhos, numa expresso de perplexidade.
	E por que no?  Cassie retrucou, afetando uma se renidade que estava longe de possuir.
Um longo momento se passou. O silncio caiu entre ambos, como uma pesada cortina.
O telefone tocou na mesa de Blake. Mas ele nem se importou em atender.
	Algum est ligando para voc  disse Cassie, ainda com os olhos fixos nos dele.
	Dorothy cuidar disso.
Aps alguns momentos, o telefone parou de tocar.
	Por que est agindo assim, Cassie?  Blake indagou, num em voz grave e muito baixa.
	E por que voc est dando este passo, to definitivo?  ela rebateu, no mesmo tom.
Porque te amo, Cassie querida. Sempre te amei, acho que desde sempre. Apenas, nunca tive coragem de confessar o que sinto.
Era isso que Cassie desejava ouvir, dos lbios daquele homem. Mas a nica resposta que recebeu foi um prolongado silncio.
Ferida, atingida no ponto mais frgil de seu corao, ela apenas disse:
	Se voc no tiver objees, podemos comear a planejar a cerimnia.
Para ganhar foras, Cassie recordou-se da conversa que havia tido com Janette e Samantha,  hora do almoo. Sua nica alternativa, para conquistar Blake, era despos-lo. No havia outra sada.
Revigorada por esse pensamento, ela resolveu assumir as rdeas da situao. Caso contrrio, acabaria chorando ali mesmo, diante de Blake.
	Como voc sabe, completarei vinte e um anos no prximo ms. Que tal se nos casssemos no dia seguinte ao do meu aniversrio?
	Para mim, est bem  Blake- concordou, num tom calmo, que seu olhar ansioso desmentia.  Mas teremos menos de quatro semanas, at l.
	E qual  o problema?
	Voc acha que esse prazo, to curto, ser suficiente para os preparativos?
	Sem dvida  Cassie respondeu, prontamente, em bora tivesse todas as dvidas a respeito...
Jamais planejara um casamento, em toda a sua vida E no fazia a menor ideia de por onde deveria comear. Mas para isso existiam empresas promotoras de eventos, que com certeza a orientariam... Sobretudo se ela pagasse bem, por esse servio.
E dinheiro no era problema para Cassie que, naquele momento, sentia-se uma pobre menina rica. Pobre de amor, rica de bens materiais. Que ironia, ela pensou, lembrando-se de que no podia entregar-se a divagaes, pois Blake continuava a fit-la, com ansiosa expectativa.
	No se preocupe  ela disse, por fim.  Tratarei de todos os detalhes.
	Mantenha-me informado e no hesite em pedir ajuda, sempre que for necessrio. Alis, fao questo de dividir, com voc, esse encargo.
Cassie forou um sorriso, enquanto lutava para no ceder  onda de tristeza que ameaava domin-la. "Se fssemos noivos de verdade", pensou, "Blake no veria os preparativos para a cerimnia como um encargo e sim como uma tarefa prazerosa..."
Mas esse no era o caso, Cassie pensou, com um suspiro. Se tivesse muita sorte, algum dia conseguiria conquistar o corao daquele homem. Por enquanto, isso parecia quase impossvel. No momento, porm, ela precisava ser forte... O passo, definitivo, j fora dado. E era tarde para recuar.
	No se preocupe com os preparativos  ela recomendou, com a maior segurana que conseguiu.  Afinal, voc tem a Warrington Construction para dirigir.
	E voc tem que estudar, para os exames da universidade.
	Mas os estudos no me tomam o dia inteiro. Terei tempo de sobra para cuidar de nosso casamento. Fique tranquilo, Blake.
	Ao menos, deixe-me colaborar.
	J disse que no  preciso.
	Fao questo.  Tateando os bolsos do palet, ele retirou um carto de crdito e ofereceu-o a Cassie.  Tome. Use quanto for preciso.
	Mas...
	Por favor  Blake insistiu.  Se no vou tratar das providncias para a cerimnia, quero ao menos arcar com os custos.
	Est bem  Cassie aquiesceu.  Mas creio que seria mais justo se dividssemos...
	Nesse caso, teramos de fazer o mesmo com os preparativos.  Blake a interrompeu, com um sorriso que exibia seus dentes perfeitos, como prolas.  Por favor, no vamos discutir mais este assunto.
	Como quiser, Blake  ela cedeu, aceitando o carto.  Eu o informarei sobre os gastos.
	No  preciso.  Blake continuava a sorrir.
E nunca parecera to belo, Cassie pensou, com um tremor de pura emoo. Mas no podia demonstrar o que sentia... Caso contrrio, teria de atirar-se aos ps de Blake e implorar-lhe amor.
	Teremos de anunciar o casamento  ele afirmou, interrompendo-lhe as divagaes.
	De minha parte, no gostaria de fazer muito alarde 	Cassie declarou.
	Estou inteiramente de acordo. Mas precisamos dar a  notcia a Olive e Alexander. Talvez possamos convid-los para jantar, num bom restaurante. O que acha da ideia?
	Acho que Alexander se sentiria to embaraado, num local desse tipo, que acabaria nem desfrutando o jantar. E que Olive, por sua vez, ficaria to preocupada com ele, que...
	J entendi onde voc quer chegar  Blake aparteou.
	E reconheo que tem toda a razo. Nesse caso, podemos convidar Olive e Alexander para um jantar em minha casa.
	Ou na minha  Cassie sugeriu.  Afinal, Alexander e Olive se sentem to  vontade, l.
	Talvez gostassem de mudar um pouco de ambiente, de espairecer...  Blake argumentou.
	Continuo achando melhor que seja l, mesmo  Cassie insistiu.  Afinal, Olive e Alexander j ficaro bastante surpresos, com a notcia. Portanto,  prefervel que estejam em seu prprio ambiente.
	J que voc insiste...  Blake concedeu.
	Estou pensando no bem-estar dos dois.
	Compreendo  Blake assentiu.  Ento, est combinado E para quando marcaremos o jantar?  Cassie
perguntou.
	Para a data que lhe parecer mais apropriada.
	Como esto suas noites, Blake?  ela indagou.
"Inquietas, ou vazias..." Ele respondeu, em pensamento.
"Inquietas quando penso demais em voc. E, vazias, quando sinto o peso terrvel da solido, nas altas horas da noite, sonhando ter, a meu lado, uma mulher que me completasse." Mas Blake jamais ousaria traduzir essas sensaes em palavras. Por isso, apenas respondeu:
	Em geral, tenho as noites livres.
	Nos fins de semana tambm?
	Sim.
	Ento, marcarei o jantar para o prximo sbado  Cassie decidiu.
	Para mim, est perfeito.
	Otimo. Ligarei amanh, confirmando.
	Estarei  espera, Cassie.
	Bem, vou deix-lo trabalhar, agora. J tomei demais o seu tempo.
	De forma alguma.
Ambos fitaram-se longamente. Como noivos, teriam de dizer algo mais... Ou apenas trocar um beijo de despedida. Mas quem se atreveria a dar o primeiro passo?
Nem Cassie, nem Blake, ousaram. Ao fim de vrios minutos, ela voltou-se e caminhou em direo  porta. J ia abri-la, quando Blake chamou-a:
	Cassie?
	Sim.
	S mais uma coisa...
	Diga...
Ele fitou-a, entre ansioso e relutante, procurando bem as palavras para o que tinha a dizer. De sbito, meneou a cabea, como se desistisse.
	O que foi?  ela indagou, curiosa.
	Nada...  Ele sorriu.  Acho que j est tudo com binado... por enquanto.
	Certo.  E Cassie saiu, perguntando-se o que Blake teria querido lhe dizer.
O jantar com os Masterson transcorria num clima alegre e agradvel.
No meio da refeio, Blake anunciou seu casamento com Cassie. E a notcia causou perplexidade, no velho casal.
Alexander, porm, era um homem simples e cordato. Logo comeou a vibrar com a futura unio de ambos. E chegou a comentar sobre o quanto o velho Henry Warrington ficaria feliz, com o fato:
	Ele o amava tanto, Blake. E, de onde quer que esteja, haver de sentir-se radiante por saber que nossa querida Cassie em breve ser esposa do homem a quem ele considerava como um filho.
J Olive a todo momento fitava Cassie com uma expresso interrogativa. Era como se perguntasse: "Mas, querida, o que aconteceu? Como se explica este sbito romance entre voc e Blake?"
Cassie sabia que Olive lhe faria essa pergunta, textualmente, depois que Blake partisse.
O jantar chegou ao fim, coroado com um manjar com calda de ameixas, preparado por Olive para a ocasio. Tratava-se da sobremesa favorita de Blake.
Depois de um saboroso caf e licores, Blake despediu-se e foi para casa. Logo em seguida, Alexander recolheu-se para dormir.
A ss, Olive e Cassie tiraram a mesa do jantar. Cassie ofereceu-se para lavar a loua, mas Olive no permitiu. Fez questo de encarregar-se da tarefa, a despeito dos protestos de Cassie, que ento pegou um pano de prato e comeou a enxugar a loua.
Quando terminaram, Olive props:
	Que tal um ch de jasmim?
	 uma boa ideia  Cassie aprovou.
Minutos mais tarde, ambas sentavam-se novamente  mesa, para saborear a bebida quente e perfumada.
	Voc no tem nada para me dizer?  Olive perguntou, depois de sorver um pequeno gole de ch.
Cassie forou um sorriso:
	E voc no tem nada para perguntar?
	Voc sabe que sim, querida.  Olive a fitava com a ternura de uma me, dedicada e um tanto apreensiva.  Afinal, o que est acontecendo? Nunca imaginei que Blake pudesse se interessar por voc... dessa forma.
Cassie no respondeu. Apenas levou a xcara aos lbios, com ar pensativo.
	Sempre soube que ele a estimava muito... Como a uma irm  Olive afirmou, aps alguns momentos.  Ao menos, era assim que eu pensava, at hoje.  Aps uma pausa, indagou:  Por que nunca me contou que Blake se sentia atrado por voc?
Cassie lanou-lhe um olhar inquieto, mas permaneceu em silncio. Afinal, como responder aquela questo?
	Houve momentos, durante o jantar, em que voc me parecia to surpresa e confusa quanto eu  Olive comentou, intrigada.  Ser que voc tambm s ficou sabendo dos sentimentos de Blake h poucos dias, por ocasio da proposta de casamento?
	Pode-se dizer que sim.  Cassie suspirou, profundamente.
	E voc acredita, realmente, que ele a ama, querida?
Uma nuvem de tristeza turvou os olhos azuis de Cassie, que interrompendo o gesto de sorver mais um gole de ch, declarou:
	H vrias razes, alm do amor, que levam um homem a se casar.
	Talvez  Olive retrucou, fitando-a com estranheza.
 Mas o amor sempre foi, e continuar sendo, a melhor razo para justificar a unio de um homem e uma mulher.
As palavras da velha senhora fizeram com que os olhos de Cassie se inundassem de lgrimas. Manter-se sorridente e segura, durante o jantar, j tinha sido uma prova de fogo. Mas agora, que Olive a chamava para uma conversa franca, Cassie no mais poderia fingir.
Penalizada, Olive levantou-se e, puxando a cadeira para bem perto de Cassie, sentou-se novamente e acariciou-lhe o rosto.
	Ah, minha doce criana... S agora comeo a perceber o que est acontecendo. Voc o ama, no  mesmo?
	Sim  Cassie declarou, por entre as lgrimas.  Com todo meu corao.  Aps uma pausa, acrescentou:  E sabe o que pretendo fazer, quando me casar com Blake?  Sem esperar pela resposta, ela mesma concluiu:  Vou mostrar-lhe o quanto o amo e, talvez, conseguir que ele corresponda a esse sentimento.
	Tenho medo de que voc sofra  Olive disse, baixinho, enquanto a abraava.  Tambm sei que Blake  um bom homem e que saber honr-la.
	No quero apenas honra  Cassie balbuciou.  Quero amor.
	Bem, voc  uma garota maravilhosa, encantadora, de bons sentimentos.  bem possvel que chegue a atingir seu objetivo, mas...  Olive interrompeu-se.
	Mas?  Cassie perguntou, erguendo para ela o rosto lavado de lgrimas.
	Gostaria que as coisas no acontecessem to depressa. Seria prefervel que voc e Blake se conhecessem melhor, antes de darem esse passo definitivo.
Com um sorriso triste, Cassie argumentou:
	Ns j nos conhecemos muito bem, lembra-se? Eu ainda era uma menina, quando papai trouxe Blake aqui em casa, pela primeira vez.
	Mas  diferente  Olive insistiu.  Vocs deveriam ter um perodo de namoro, noivado... Por que precipitar tudo? O que deu na cabea de Blake, para fazer-lhe essa proposta?
	A culpa foi minha  Cassie confessou, num fio de voz.
	Como assim, querida?
	Eu... tencionava chamar a ateno de Blake, sobre mim. Queria que ele me visse como uma mulher e no como uma criana. Da, encostei-o na parede e praticamente obriguei-o a me pedir em casamento.
	No estou entendendo.
	Claro que no, pois voc no tem a menor ideia da judiao que fiz, com Blake, na quarta-feira passada.  E ante o olhar confuso de Olive, Cassie narrou o que havia acontecido.
	Mas por que voc agiu assim, minha querida?
	Por amor  Cassie respondeu, com a voz embargada pelas lgrimas.  Por amor  repetiu, antes de contar, tambm, sobre a conversa que tivera com Samantha e Janette, na quinta-feira. Por fim, concluiu:  Pensei muito e acho que minhas amigas tm razo. Preciso de tempo, para conquistar Blake. E a nica maneira de consegui-lo  casando-me com ele, convivendo estreitamente.  Fitando Olive com ansiedade, indagou:  Voc acha que estou cometendo uma loucura, no  mesmo?
	Nem sei dizer, minha querida  a velha senhora respondeu, acariciando-lhe os cabelos negros.  A gente faz de tudo, quando ama uma pessoa. Como diz aquele velho e sbio provrbio, o corao tem razes que a prpria razo desconhece. Bem, s posso desejar-lhe sorte... E pedir-lhe que nunca se esquea de contar com esta velha rabugenta.
	No diga isso. Voc  uma das pessoas que mais amo, no mundo. E como a me que jamais tive.
Diante daquelas palavras, os olhos de Olive encheram-se de lgrimas.
	Sou uma velha boba, que s vezes tem vontade de coloc-la numa redoma, para proteg-la dos perigos do mundo. Entretanto, sei que voc precisa viver e adquirir experincia, pois esta  a nica forma de crescer.
	Tendo-a como aliada, j me sinto mais confiante. E, a propsito, quero que voc e Alexander sejam meus padrinhos.
	Ns?  Olive surpreendeu-se.
	Claro.
	Mas no sei se poderemos lhe dar um presente de casamento  altura do que voc merece, querida. Por que no convida pessoas de mais posses para...
	Quero vocs dois  Cassie insistiu, interrompendo-a.
 E no conheo ningum que possa me dar um presente mais precioso do que o afeto que vocs me dedicam, todos os dias. E ento?  Ela sorria, docemente, enquanto enxugava as lgrimas. Voc aceita?
	No apenas aceito, como me sinto comovida e honrada.
	Otimo. Agora, preciso perguntar a Alexander.
	Ele ficar radiante, com o convite... E tambm embaraado, claro, j que  tmido por natureza. Imagine s quando souber que desempenhar um papel to importante, no seu casamento.
	Por favor, convena-o a aceitar.
	Eu farei isso, meu bem. Pode ter certeza.
CAPITULO VII

Os dias que se seguiram foram atribulados para Cassie, que jamais imaginara que os preparativos para uma cerimnia de casamento pudessem dar tanto trabalho.
Depois de fazer vrias pesquisas de preos, acabou contratando o Buffet Good-Lucky, uma empresa especializada em promover eventos e festas. O buffet oferecia um timo salo para recepo dos convidados, incluindo a decorao e um jantar para cem pessoas.
Cassie passou vrios dias escolhendo o estilo da decorao do salo e o cardpio do jantar. Depois, foi a vez dos convites e das providncias burocrticas pafa o casamento civil e religioso. Esse trabalho ocupou uma semana inteira de Cassie, que mal teve tempo para dedicar-se aos estudos para o exame na universidade.
Cassie tambm fez uma pesquisa de preos, entre vrios estilistas, para decidir a qual deles confiaria a confeco de seu vestido de noiva. Acabou contratando o que lhe pareceu mais competente e ficou satisfeita com o modelo exclusivo que ele desenhou, especialmente para ela.
Agora, faltava o enxoval.
Cassie fez uma relao de tudo o que achava necessrio. Apresentou-a a Olive e pediu sua opinio. S ento descobriu que havia se esquecido de muitos itens. Com a ajuda da velha senhora, concluiu a lista e passou vrias manhs fazendo compras no melhor shopping da cidade.
A uma semana do casamento, Cassie sentia-se tranquila, com relao s providncias que havia tomado. Ao que tudo indicava, tinha feito um bom trabalho.
Em meio a tanta correria, mal lhe sobrava tempo de pensar em si mesma. E talvez fosse melhor assim, pois, quando refletia sobre o passo definitivo que estava dando em sua vida, sentia-se assustada e frgil. Se o plano para conquistar Blake no desse certo... Ela talvez jamais se recuperasse dessa derrota.
Mas Cassie quase nunca se entregava a esse tipo de con-jeturas. Se o fizesse, acabaria entrando em pnico.
Assim, o tempo passava... E, afinal, o dia do casamento chegou.
A cerimnia no cartrio estava marcada para uma manh de tera-feira, exatamente um dia depois do aniversrio de vinte e um anos de Cassie. Um aniversrio que no tivera nenhuma comemorao especial, seno um almoo com Oli-ve, Alexander, Blake, Samantha e Janette, no Restaurante Gary's House.
O almoo transcorrera num clima cordial, mas havia uma espcie de tenso, no ar. E fora com uma sensao de alvio que Cassie voltara para casa, na companhia de Olive e Alexander.
Para o casamento civil, Cassie havia escolhido um vestido rosa-plido, de corte clssico, que caa-lhe com perfeio. Blake usava um terno cinza, muito elegante, camisa branca de tecido fino e gravata combinando.
Cassie no havia convidado ningum, exceto os padrinhos, para a cerimnia civil.
Olive e Alexander, muito emocionados, pareciam um tanto tmidos, na austera sala do cartrio de Heaven City. Muitos anos atrs, ambos haviam selado, ali, sua unio
E durante a cerimnia, Cassie desejou que tambm ela e Blake tivessem a mesma sorte daquele adorvel casal. Que conseguissem construir uma vida baseada em amor, respeito, confiana mtua e esperana no futuro. Esses ingredientes eram a chave para o sucesso de um casamento.
A cerimnia religiosa estava marcada para o final da tarde, na Igreja Matriz de Heaven City.
Aps o casamento civil, Cassie despediu-se apressadamente de Blake, pois precisava ir para casa se aprontar. E teria pouco tempo para faz-lo.
Janette e Samantha ofereceram-se para ajud-la, no que fosse preciso. Cassie agradeceu, mas dispensou o oferecimento. Afinal, ambas seriam suas damas de honra e tambm precisavam de tempo para se vestir.
Alm do mais, Cassie sentia-se bastante tensa. E no queria muita agitao, em torno de si. Poderia contar com Olive, para auxili-la... E tambm para ajud-la a se acalmar.
Parado no altar da igreja matriz, Blake ajeitou a gravata estilo black-tie, que de sbito pareceu-lhe excessivamente justa. Mas era s impresso, claro. Pois estava acostumado quele tipo de traje, que sempre usara de maneira natural e descontrada.
A questo era que se sentia bastante nervoso. E pensar que, um ms atrs, ele nem sequer cogitava em casar-se novamente.
Tudo acontecera depressa demais. Em certos momentos, naquelas ltimas semanas, ele tivera vontade de cancelar tudo, de pedir a Cassie que lhe desse tempo para raciocinar, ou que reconsiderasse sua louca deciso de entregar-se ao primeiro homem que aparecesse em seu caminho.
Com um leve meneio de cabea, Blake afastou esses pensamentos incmodos.
Agora, era tarde para retroceder, ou fazer conjeturas. Dentro de instantes, Cassie entraria na nave principal da matriz, para tornar-se sua esposa, perante as leis da Igreja. Pois, juridicamente falando, ela j era a sra. Blake.
Lanando um olhar ao redor, ele observou os padrinhos, postados ao redor do altar.
Ali estava Olive, muito elegante e compenetrada, deixando transparecer uma forte emoo. Alexander no se encontrava a seu lado. Aguardava, do lado de fora da igreja, para conduzir Cassie at o altar. Ele e Olive seriam os padrinhos de Cassie. Quanto a Blake, convidara Dorothy, sua secretria grvida de seis meses, e o marido, Jeremy. De mos dadas, ambos esperavam, muito calmos, a entrada da noiva.
Por um instante, Blake observou o ventre arredondado de Dorothy. Algum dia, Cassie tambm estaria assim... gerando um filho seu?
Era difcil imagin-la me. Era quase impossvel imagin-la esposa.
Voltando-se, contemplou a igreja lotada de convidados. Ali se encontrava a alta classe de Heaven City, alm da imprensa local e de alguns parentes distantes de Cassie. Quanto a ele, no possua familiares. Perdera os pais e ficara sozinho no mundo. Felizmente encontrara, em Henry Warrington, Olive, Alexander e Cassie uma nova famlia. E agora, esses laos que at ento eram apenas afetivos, seriam reconhecidos por lei.
Olhando ao redor, Blake contemplou a decorao de lrios brancos e amarelos que enfeitavam a matriz... Cassie fizera um timo trabalho. Havia tomado todas as providncias necessrias, sem esquecer nenhum detalhe.
Isso causava-lhe um misto de admirao e espanto. Afinal, ele jamais imaginara que Cassie pudesse ser to eficiente. Que outras surpresas ela estaria lhe reservando?
Antes que Blake pudesse cogitar sobre essa questo, os primeiros acordes da Primavera, um trecho de As Quatro Estaes, de Antnio Vivaldi, soaram na igreja. O organista executava, com maestria, a bela obra do mestre italiano.
Janette e Samantha, usando longos vestidos amarelos, enfeitados com rendas brancas, entraram na nave principal da matriz. Estavam encantadoras e suas roupas combinavam com a decorao, causando um efeito muito bonito.
Cassie vinha logo atrs, de brao dado com Alexander... E parecia uma viso de sonho. O vestido de organdi branco, de alas, deixava-lhe  mostra os ombros bem-feitos, os braos e o pescoo esguio, adornado por um colar de minsculas prolas.
Uma tiara de brilhantes enfeitava-lhe os cabelos negros, presos num coque, de onde partia um vu de tule, com pequeninos brocados, que reluziam  medida que ela caminhava.
Cassie trazia, na mo, um buque de rosas brancas. Sorria calmamente, olhando ao redor, parecendo no se dar conta do deslumbramento que causava, com sua graa e beleza.
Os convidados se levantavam  medida que ela passava, precedida pelas damas de honra.
Os acordes da bela msica de Vivaldi reverberavam no interior da igreja, levando todos a um estado de profunda emoo. A luz do final da tarde filtrava-se pelos vitrais, acentuando o clima de magia que reinava no ambiente.
Blake estava fascinado com a beleza de Cassie. Naquele momento, ela j no parecia uma criana, mas uma mulher no auge da juventude e vigor, pronta para amar e ser amada...
O desejo incendiou o corao de Blake, fazendo sua pulsao acelerar-se. Mas no era por esse motivo que ele havia se disposto a desposar Cassie e sim para evitar que ela se ferisse, para salv-la de sua prpria inconsequncia... Era bom se lembrar disso, ele se recomendou, respirando com-passadamente, tentando se acalmar.
Os acordes da msica chegaram ao pice, no momento em que Alexander e Cassie subiram ao altar. Com um sorriso carregado de emoo, Alexander entregou-a a Blake e tomou seu lugar, ao lado de Olive.
Gentilmente, Blake a recebeu e levou-a diante do padre, que j aguardava para iniciar a cerimnia. As damas de honra afastaram-se para um lado, depois de ajeitar o vu de Cassie que, alis, sentia-se num curioso estado de esprito. Era como se acabasse de transpor as portas do paraso...
As preocupaes das ltimas semanas haviam se desvanecido, to logo ela pisara a nave central da matriz.
Todos os receios e dvidas se dissipavam, para ceder lugar a uma alegria infinita. O contato da mo de Blake contra a sua era reconfortante. E Cassie tinha a ntida impresso de que, com aquele homem a seu lado, nada de mal poderia lhe acontecer. O mundo era uma caixa de surpresas maravilhosas. Um caminho de felicidade comeava a se abrir, para ambos.
Era assim que Cassie se sentia, enquanto se ajoelhava, ao lado de Blake, diante do padre e sob o olhar atento de cem convidados.
O sacerdote deu incio  cerimnia. Parecia to mais cordato do que no dia anterior, Cassie pensou, lembrando-se da discusso que tivera com ele, ao inform-lo de que no ensaiaria a cerimnia, como era de costume.
	Tenho muitos compromissos para resolver e no me sobrar tempo para ensaiar  ela explicara.
	Mas assim no  possvel  o padre protestara.  Todos os noivos fazem questo disso.
	No se preocupe  Cassie o tranquilizara.  Garanto que tudo correr muito bem.
	Se a senhorita diz...  o padre retrucara, nada convencido.
Entretanto, Cassie havia mantido sua posio. No quisera pedir a Blake para ensaiar e tampouco desejava faz-lo. Agora, ela se certificava de ter agido bem... Pois tudo estava correndo s mil maravilhas. Tivera apenas de dar algumas instrues s damas de honra e aos padrinhos.
A voz do sacerdote, iniciando a cerimnia, interrompeu-lhe os pensamentos. Erguendo o rosto, ela concentrou-se inteiramente em suas belas palavras.
Quantas vezes aquele padre j presidira a cerimnias de casamento? Cassie cogitou, num dado momento. Muitas, sem dvida. Entretanto, ele falava com profundo enlevo, como se estivesse celebrando um matrimnio pela primeira vez.
Fidelidade, respeito, confiana, carinho, solidariedade na alegria e na tristeza, na sade e na doena... Esses eram os componentes de uma unio perfeita, Cassie pensava, comovida. Assim falava o padre, enquanto selava, sob as leis da igreja, seu casamento com Blake.
As alianas, por favor...  o padre pediu, a certa altura.
Cassie estremeceu.
As alianas! Como pudera esquecer-se desse item absolutamente importante?
Lembrava-se de que a funcionria que a atendera, no Buffet Good-Lucky, perguntara-lhe sobre elas. Cassie apenas respondera que iria providenciar as alianas, numa joalheria. Depois, com a correria dos preparativos, acabara se esquecendo totalmente....
"E agora?", ela pensou, aflita. O que fazer? A cerimnia j no seria perfeita, sem o smbolo de sua unio com Blake.
Voltando-se para ele, Cassie murmurou:
	Sinto muito, Blake, mas esqueci de...  E interrompeu-se ao v-lo retirar, do bolso do smoking, um pequenino estojo de veludo bege.
	O que disse, querida?  ele indagou, baixinho, com uma expresso serena.
	Oh, nada  ela respondeu, invadida por um intenso alvio.  Nada mesmo.
Blake entregou o pequeno estojo ao padre, que depois de abenoar as alianas, deu seguimento  cerimnia.
A emoo que Cassie sentiu, quando Blake colocou a aliana em seu anular esquerdo, era indescritvel... S comparvel  alegria que a invadiu, quando ela fez o mesmo gesto, repetindo a frase que o padre lhe ditava.
	Eu te recebo, Blake Campbell...
E, desde o fundo de seu corao, Cassie realmente o recebia... Como o homem eleito por seu amor. Pronunciava cada palavra com profunda emoo e, de sbito, sentiu vontade de confessar a Blake o quanto o amava. Poderia fazer isso ali, diante do padre, dos padrinhos e convidados, pois coragem no lhe faltava.
Mesmo assim, Cassie calou seu amor. De algum modo sabia que ainda no chegara o momento de revelar a verdade. Talvez naquela noite, quando ficasse a ss com Blake, encontrasse o momento adequado para faz-lo. Explicaria, ento, que sua encenao a respeito de sexo e casamento no tivera outro objetivo seno o de chamar-lhe a ateno para o fato dela j ser uma mulher adulta... Preparada para o amor. Diria, tambm, que jamais se entregaria ao primeiro pretendente que aparecesse. Tranquilizaria Blake, a respeito de seu carter. Pois ele certamente a julgava uma garota frvola, sem sentimentos.
	Eu os declaro marido e mulher.
A voz do sacerdote interrompeu-lhe as divagaes. A cerimnia chegava ao fim.
Os acordes de As Quatro Estaes soaram na igreja, coroando a celebrao do casamento.
Os padrinhos prepararam-se para descer do altar.
As damas de honra aproximaram-se e ajeitaram o vu de Cassie, que mal se dava conta da movimentao em torno. S tinha olhos para Blake, o homem a quem amava havia tanto tempo, e que enfim se tornava seu esposo e companheiro.
 Agora, Blake Campbell, pode beijar a noiva  disse o padre, depois de cumprimentar ambos, desejando-lhes felicidades.
Cassie estremeceu. No tinha se esquecido apenas das alianas, mas tambm daquele costume, to comum a todos os casamentos.
"Aposto que somos os nicos noivos que nunca trocaram sequer um beijo, antes do cerimnia."
Isso foi tudo que Cassie conseguiu pensar, enquanto seu rosto assumia uma expresso de ansiosa expectativa.
Emocionada, ela fechou os olhos enquanto Blake inclinou-se em sua direo. Mas os lbios de ambos no se encontraram... Blake apenas tocou-lhe a testa, num beijo rpido, quase fraternal.
Ao afastar o rosto, fitou-a com intensidade. E, ento, algo de especial aconteceu.
O tempo parecia suspenso, no ar. A msica de Vivaldi dava a impresso de elevar-se at o infinito, ligando as energias da terra e do cu. As pessoas, como se movidas por um acordo tcito, permaneciam imveis, num misto de respeito e enlevo.
Cassie no saberia dizer por quanto tempo ambos permaneceram assim, alheios ao mundo exterior, fascinados por uma fora contra a qual seria intil resistir. Os rostos estavam muito prximos, agora. E foi to natural quando Blake, inclinando-se, cobriu-lhe os lbios com os seus, num toque rpido e fugidio.
O corao de Cassie inflamava-se de paixo e desejo. O sangue corria-lhe como fogo nas veias e, por um instante, ela julgou que fosse desfalecer. Suas mos procuraram as de Blake, que pressionou-as levemente, num gesto de infinito carinho. E ento, quando Cassie julgava que aquele momento havia chegado ao fim, ele voltou a beij-la.
Cassie estremeceu, de puro prazer. J no se tratava de um leve toque, mas de um beijo ousado, com as lnguas se buscando avidamente, como se tivessem uma mensagem urgente a transmitir... Uma mensagem que nenhuma palavra poderia traduzir, pois o desejo era feito de outra matria, impalpvel, sutil e poderosa.
Cassie sentia-se arrebatada de si mesma e do mundo ao redor. Jamais, nem em seus sonhos mais loucos e romnticos, julgara existir tamanha emoo.
Quando por fim os lbios se afastaram, ela levou alguns segundos para compreender onde estava e o que havia acontecido.
Tinha chegado s portas do paraso. Era uma mulher, agora... Ou quase. Naquela noite, atingiria sua plenitude. E justamente nos braos do homem escolhido por seu corao. Nada poderia ser mais belo e significativo do que isso.
Sob os acordes da msica de Vivaldi, Cassie deixou o altar, de mos dadas com Blake, seguida pelos padrinhos e pelas damas de honra. A cada passo, ela sentia que estava andando diretamente de encontro  felicidade. Envolta nesse clima de magia, chegou  porta da igreja. E ento viu-se rodeada por uma verdadeira multido.
Emocionadas, as pessoas queriam abraar os noivos, como se assim pudessem participar da aura que os rodeava. Pois tanto Blake, como Cassie, pareciam iluminados por uma fora impressionante.
Cerca de quarenta minutos depois, todos se dirigiram ao salo de festas do Buffet Good-Lucky, situado a poucos quarteires da igreja.
Se Blake havia se surpreendido com a decorao da matriz e a organizao da cerimnia, providenciada por Cassie, chegou a espantar-se com a recepo no Good-Lucky.
Decididamente, Cassie havia crescido em apenas poucas semanas. A menina rebelde agira com incrvel maturidade... E o resultado no poderia ser melhor.
No apenas Blake, mas todos os convidados, elogiavam a beleza da decorao, os canaps e bebidas servidos pelos garons, enfim... Tudo estava perfeito. Essa era a opinio geral.
Um bolo inteiramente branco destacava-se no centro de uma mesa, enfeitada com tules de vrios tons de azul e branco. Sobre o bolo, um arranjo de rosas confeitadas chamava a ateno pela delicadeza e bom gosto.
Cassie vivenciou outro momento inesquecvel, ao partir o bolo. Ofereceu o primeiro pedao a Olive, que aceitou-o com um largo sorriso, embora seus olhos se enchessem de lgrimas. Mas novas alegrias a esperavam: a hora de jogar o buque, que Janette pegou, com uma exclamao de alegria... O primeiro gole de champanhe, quando entrelaou o brao ao de Blake... E a sensao de danar uma valsa vienense, executada por uma pequena orquestra que, ocupando o palco a um canto do salo, provocava aplausos a todo momento.
 hora do jantar, Alexander surpreendeu-a com um breve, mas comovente discurso, no qual desejava, aos noivos, a maior felicidade do mundo.
Cassie sentia-se como num sonho dourado. A festa de seu casamento estava sendo um sucesso. Era gratificante ver tudo correndo s mil maravilhas, depois de tanto esforo, tanta correria e apreenso.
Por volta de dez horas da noite, os primeiros convidados comearam a se retirar. s quinze para as onze, apenas uns poucos permaneciam no salo.
Olive e Alexander abraaram Blake e, depois, Cassie. Renovaram seus votos de felicidade e partiram. Em seguida, foi a vez de Samantha e Janette. Ambas despediram-se de Blake, antes de envolver Cassie, num caloroso abrao.
	Trate de ser feliz, amiga  Janette disse-lhe ao ouvido.  Voc bem que merece.
	Voc sabe que minha luta est apenas comeando  Cassie afirmou, no mesmo tom.  Mas espero conseguir meu intento...
	Depois do que vi, hoje, acho que voc no precisar de muito esforo  Samantha segredou.
	E verdade  Janette concordou, com ar maroto.  Aquele beijo cinematogrfico, no altar...
	E o modo como ele olha para voc...  Samantha completou.  No h dvidas de que Blake est loucamente apaixonado.
	Psiu!  Cassie recomendou, num sussurro.  Falem baixo, por favor.
	 No se preocupe, sra. Blake..  Janette sorriu.  Neste exato momento, seu marido est se despedindo daquele simptico casal.
Voltando-se, Cassie o viu abraando Jeremy, marido de sua secretria, Dorothy. Ambos haviam sido padrinhos de casamento de Blake.
	Cassie, por favor...  ele chamou-a, num tom suave.  Ser que pode vir at aqui, um instante?
	V, garota.  Janette exibia seu buque.  A prxima serei eu, hein!?
	Tomara que voc tambm encontre seu Prncipe Encantado.  Cassie fitou-a com um misto de gratido e carinho.  E desejo o mesmo para voc, Samantha.
	Obrigada, amiga.
	Ande, no o deixe esperar - disse Janette. E ambas partiram.
Andando, como se flutuasse em nuvens, Cassie aproximou-se de seu marido.
	Dorothy e Jeremy querem se despedir  ele anunciou.
	Obrigada por terem vindo  Cassie agradeceu, num tom amvel.
	Ns  que nos sentimentos privilegiados, por participar dessa festa inesquecvel  Dorothy declarou.
Contemplando o ventre arredondado daquela mulher simptica e jovial, Cassie imaginou-se esperando um filho de Blake. E seu corao pulsou, ao compasso de uma infinita alegria. Mas talvez fosse cedo para pensar nisso. Afinal, ela ainda no havia tido sequer sua primeira experincia, no campo do amor.
	Para quando  o beb?  perguntou, emocionada.
	Para daqui a trs meses  Jeremy respondeu, pela esposa.  E mal posso esperar.
	E o primeiro filho?  Cassie quis saber.
	Sim  Dorothy afirmou, orgulhosa.  J tenho trinta e dois anos e estava passando da hora de ser me.
	No h idade para a felicidade  Cassie sentenciou.
	Tem razo, minha querida.  E Dorothy abraou-a, calorosamente.  Seja feliz, Cassie.
	Obrigada.  Em seguida, Cassie despediu-se de Jeremy. Ao lado de Blake, junto  entrada do salo, ficou observando o casal se afastar, em direo ao estacionamento.
 Enfim, terminou  disse Blake.
 E tudo correu muito bem.
	Muito bem?  ele repetiu, sorrindo.  Esse termo  insuficiente para definir o que voc fez.
	Como assim?
	Ora, voc planejou uma cerimnia e uma recepo maravilhosa, Cassie. E quero dar-lhe os parabns, por isso.
Estou sinceramente admirado, com sua competncia.
	Eu o avisei de que cuidaria de tudo, no foi? ela retrucou, lisonjeada.  Voc julgou que eu no daria conta de tamanho encargo?
	Quer uma resposta sincera?  Ele a fitava no fundo dos olhos.
	Lgico que sim.
	Achei que voc faria um bom trabalho, sim. Mas no esperava tanta sofisticao e bom gosto. Alis, no fui o nico a ter essa impresso. Voc surpreendeu a todos.
	Obrigada.  Cassie sorriu.  Para ser franca, eu tambm no imaginava que tudo correria to bem. E afora eu ter cometido um pecado imperdovel ao esquecer as alianas...
	Mas esse encargo era meu, mesmo  Blake afirmou.
	Acontece que no tnhamos combinado nada, sobre isso.
	Pois . Sabe que pouco antes de chegar  igreja, eu me lembrei de conversar com voc, a respeito? Liguei para sua casa, mas voc j havia sado.  Blake fez uma pausa e sorriu.  Seria engraado se, na hora em que o padre pedisse as alianas, tanto eu quanto voc lhe oferecssemos um par...
	O padre, sem dvida, ficaria desconcertado.
 	E ns tambm.
 Ambos riram, divertidos. E ento Blake props:
	Vamos embora?
Uma nova sensao de felicidade invadiu Cassie. De certo modo, sua vida com Blake estava se iniciando com aquela simples frase: "Vamos embora?"
Ela mal podia esperar para chegar.
Ficara combinado que Cassie se mudaria para a casa de Blake.
Na semana anterior, ela lhe telefonara, no escritrio, pedindo-lhe as chaves da casa, pois pretendia levar seu enxoval para l, bem como seus quadros e livros preferidos. Ele, porm, dissera-lhe que se encarregaria do transporte. E de maneira gentil, mas firme, deixara a entender que preferia fazer isso sozinho.
Cassie sentira-se um tanto confusa com essa atitude, j que queria arrumar suas roupas e pertences, pessoalmente, no futuro lar. Mas no insistira, pois estava muito atribulada com as ltimas providncias para o casamento.
	Vamos?  A voz de Blake interrompeu-lhe os pensamentos.
	Sim.  Antes de sair, porm, Cassie lanou um olhar ao redor do salo, onde j no havia nenhum convidado.
Apenas os garons transitavam de um lado a outro, recolhendo copos, pratos e talheres. Uma equipe de funcionrios do Buffet Good-Lucky aguardava a sada dos noivos, para desmontar a decorao. No palco, os componentes da orquestra guardavam seus instrumentos.
"Fui feliz, nas poucas horas em que passei aqui", Cassie pensou, emocionada.
Que novas surpresas a aguardariam, naquela noite? Ela no saberia responder, mas seu corao estava cheio de esperanas e perspectivas de felicidade.

CAPITULO VIII

	E ento?  Blake indagou.  O que I acha de seu novo lar, Cassie Warrington Campbell?
Maravilhada, Cassie olhava ao redor, mas no conseguia responder a pergunta.
Blake havia mudado a decorao da sala de estar.
Cortinas cor de areia, novas, ocupavam o lugar das anteriores, que eram bege. Mveis de madeira clara, com estofados de tom ligeiramente mais escuro, haviam substitudo os de mogno. Novos tapetes, com cores que variavam do marrom ao areia cobriam o assoalho de tbuas largas, muito bem polido.
Sobre a lareira, Cassie notou um porta-retrato com uma foto sua, tirada por ocasio da comemorao de seus dezoito anos. Na foto, ela sorria para a cmara, usando um vestido estampado em vermelho e branco, os cabelos negros presos num rabo-de-cavalo.
Nas paredes, gravuras retratando os quadros preferidos de Cassie eram iluminadas por minsculos refletores, que valorizavam as cores.
A um canto, uma prateleira de cerejeira exibia vasos de violeta de vrias cores. Era a planta favorita de Cassie. Aproximando-se para admir-las, ela finalmente comentou:
	So lindas, Blake.
	So suas  ele respondeu, num tom suave.  A princpio pensei em enfeitar a sala com arranjos de flores, mas preferi as violetas, por dois motivos: voc as adora... E, tambm, porque elas no murcharo dentro de alguns dias. Continuaro vivas, por muito tempo, desde que recebam os cuidados adequados.
	Eu me encarregarei disso.
	Ento, elas estaro em boas mos.  Blake sorriu.
Estendendo a mo a Cassie, convidou:  Quer conhecer os outros cmodos?
	Eu j os conheo, lembra-se?
	Venha  ele insistiu.
Cassie ainda usava seu vestido de noiva, mas no a grinalda, que havia ficado no banco traseiro do carro de Blake. Tambm ele continuava com seu smoking, mas tinha tirado a gravata, guardando-a no bolso.
A mudana na decorao no havia se restringido apenas  sala, como Cassie logo constatou.
At mesmo na biblioteca, que Blake muitas vezes usava como seu escritrio particular, havia novidades: as estantes de livros, laqueadas de branco, reluziam de novas. Isso dava um toque de leveza ao ambiente.
A sala de vdeo e som no era muito diferente da que havia na manso Warrington. Tambm ali Blake havia trocado as estantes antigas, de madeira escura, por outras, idnticas s da biblioteca.
Cassie experimentou uma emoo especial, quando Blake mostrou-lhe seu quarto, no andar superior da casa, onde predominava o tom marfim, nas cortinas, tapetes e na colcha que cobria a cama.
"Daqui a pouco, aquele ser meu leito conjugal", Cassie pensou, estremecendo de prazer e expectativa. Mas espantou-se quando Blake conduziu-a pelo corredor, at a prxima porta, enquanto anunciava:
	E aqui ser o seu cantinho...
	Como?  ela indagou, sem entender.
	Achei que voc gostaria de ter um local onde pudesse manter sua privacidade  ele explicou, enquanto abria a porta e dava-lhe passagem.  Venha ver.
O cmodo era dividido em trs partes: uma ante-sala, um dormitrio e um banheiro bastante espaoso, com sauna e hidro-massagem.
Abrindo de par em par as portas de um armrio embutido, Blake disse amavelmente:
Espero que esteja tudo no lugar.
Cassie observou suas roupas penduradas em cabides, reconheceu objetos em outras prateleiras e gavetas. Ao lado do armrio, havia uma escrivaninha e tambm uma mesa, com seu microcomputador, impressora e demais acessrios.
Numa pequena estante, Cassie viu os livros nos quais vinha estudando para os exames que prestaria em breve, na universidade.
O que a inquietou, porm, foi a cama, de solteiro, coberta com uma colcha de cetim branca. Que Blake quisesse lhe oferecer um local para estudar, vestir-se, ou mesmo para meditar... Era compreensvel. Mas o que significava aquela cama?, perguntou-se, intrigada.
Bem, talvez Blake pensasse que ela s vezes preferisse dormir sozinha. Mas isso estava fora de cogitao, sobretudo depois daquele beijo trocado no altar...
	Quando voc estiver cansada de estudar, poder relaxar um pouco, ali  ele comentou, apontando a cama, como se lhe adivinhasse os pensamentos.
Aliviada, Cassie sorriu:
	E muita gentileza sua.
	Ora, apenas quero que voc se sinta muito  vontade, aqui. E que assuma este lugar...  Blake hesitou, antes de concluir:  como sua casa.
Uma sensao de dvida invadiu Cassie. O que, exatamente, Blake estava querendo dizer? A que lugar ele se referia... A sute, ou  casa inteira?
Bastou que Cassie se recordasse, mais uma vez, daquele beijo, para que a dvida se dissipasse. Estava se afligindo  toa, o que alis era muito natural. Afinal, todas as noivas se sentiam nervosas, em sua primeira noite...
	Voc aceitaria tomar um licor, antes de se recolher?
 Blake perguntou.
	No sei  Cassie respondeu, incerta.  No tenho costume de beber e j tomei uma taa de champanhe.
	Voc prefere um refrigerante? Ou talvez um suco?
	No  ela se decidiu.  Vou quebrar a regra, por hoje.  Sorrindo, acrescentou:  Aceitarei o licor.
Est bem. D-me apenas um minuto para me trocar, sim?
Ela assentiu com um gesto de cabea e Blake saiu, fechando a porta.
Sozinha, Cassie perguntou-se o que deveria vestir.
Tinha comprado, a conselho de Janette e Samantha, uma camisola branca, de cetim, com delicadas aplicaes na altura dos seios e barra. Para combinar, um robe tambm branco, de tecido idntico, e sandlias de tirinhas. Deveria aprontar-se, j, para sua noite de npcias? Ou seria melhor optar por um vestido leve, que trocaria pela camisola, no momento de se deitar?
O que Janette e Samantha aconselhariam naquele momento?, ela se perguntou... e sorriu.
"Sua boba...", diria Janette, antes de fazer uma piada marota, sobre a situao. E Samantha, sem dvida, teria um acesso de riso.
Armando-se de coragem, Cassie se decidiu. Tirou o vestido de noiva e ajeitou-o, cuidadosamente, sobre uma cadeira. Mas no podia usar a camisola, sem antes fazer uma toalete.
Blake estranharia sua demora?, perguntou-se, a caminho do banheiro. No, se ela tomasse uma ducha rpida e no o deixasse esperando por muito tempo.
De fato, Cassie levou apenas dez minutos, sob o forte jato de gua. Em outra ocasio, tomaria um longo banho de imerso e experimentaria a hidro-massagem.
Vinte minutos mais tarde, Cassie deixava a sute, usando sua camisola sob o robe branco, os cabelos midos penteados, o rosto j sem maquiagem.
Seu corao saltava no peito, como um pssaro prestes a empreender o primeiro vo, enquanto ela descia as escadas em direo ao pavimento inferior da casa.
Blake a aguardava, sentado num confortvel sof. Sobre uma mesinha de centro, havia dois clices de amaretto, um licor italiano, de amndoas, bastante saboroso.
Blake usava um short branco, que contrastava com o tom bronzeado das pernas musculosas, camiseta estilo regata, cor de vinho, e estava descalo. Dos cabelos negros desprendia-se um leve perfume de pinho.
Ao aproximar-se, Cassie sentiu-se embaraada. E arrependeu-se por no ter vestido algo diferente. Agora, porm, era tarde para mudar de ideia.
	Sente-se  Blake convidou-a, apontando uma poltrona
ao lado do sof.
Ela obedeceu, ainda mais constrangida Afinal, um noivo no deveria convidar sua noiva para sentar-se a seu lado, no sof?Bem, talvez ele s quisesse deix-la  vontade, Cassie ponderou. Talvez fosse isso.
	Aqui est seu licor.  Blake ofereceu-lhe um clice de amaretto e pegou o outro para si.
	Obrigada.  Cassie provou um pequeno gole.  Puxa,  muito gostoso.
	Eu j imaginava que voc gostaria, pela sutileza do sabor  disse Blake, levando o clice aos lbios.
	Voc me acha uma pessoa sutil?  ela perguntou, docemente.
	Sutil, delicada e, desde hoje, de uma eficincia  toda prova.
	Por que diz isso?
	Porque s hoje descobri o quanto voc  competente, no que faz.
	Est falando de nossa cerimnia de casamento?
	Sim... Do que mais seria?
Cassie sorriu, antes de sorver mais um gole. E Blake fez o mesmo.
Por um longo momento, o silncio imperou na sala, quebrado apenas pelo tique-taque de um antigo carrilho, que Cassie conhecia desde criana. O relgio, uma verdadeira pea de antiguidade, pertencera a seu pai, Henry Warrington.
Como Blake sempre a admirara, Henry dera-lhe de presente, por ocasio de seu casamento com Catherine, anos atrs. Alm do carrilho, oferecera-lhe tambm a lua-de-mel, num luxuoso hotel do Hava.
O velho carrilho indicou quinze para a meia-noite, com uma bela cano, to familiar a Cassie quanto a Blake. Ambos entreolharam-se e sorriram.
	O decorador que contratei, para remobiliar a casa, sugeriu que eu vendesse esse carrilho num antiqurio  disse Blake.  Segundo ele, alm de eu conseguir um bom dinheiro, ainda compraria um relgio de estilo moderno, magnfico, que combinaria com toda a decorao.  Aps uma pausa, acrescentou:  Ento expliquei-lhe que, mais do que uma raridade, o carrilho foi presente do melhor amigo que j tive. Um presente sem preo, que me acompanhar onde quer que eu v.
	Fico feliz por ouvi-lo falar assim  Cassie declarou, comovida.
Ele sorriu. E o silncio novamente imperou, na sala. Blake foi o primeiro a quebr-lo:
	Receio que v se sentir decepcionada comigo...
	Por qu?  ela indagou, surpresa.
	Por dois motivos.  Um profundo suspiro brotou do peito de Blake, que de sbito parecia tenso.  O primeiro  que no viajaremos, como fazem a maioria dos recm-casados.
	J falamos sobre isso, lembra-se? Eu no poderia mesmo viajar, pois tenho "de prestar exames na universidade.
E voc est com muito trabalho, no escritrio.
Blake assentiu com um gesto de cabea, sem nada dizer.
	Qual seria o segundo motivo de minha suposta decepo?  ela perguntou, aps alguns instantes.
	E difcil dizer.  Foi a resposta misteriosa de Blake.
	No estou entendendo.
Inclinando-se em sua direo, Blake assumiu uma expresso grave.
	Talvez voc se ofenda, com o que tenho a lhe falar. Mas quero que saiba que refleti muito, antes de chegar a essa concluso.
	Oh, por favor, diga de uma vezCassie pediu, apreensiva.
	 sobre... ns.
	Sim?  Ela engoliu em seco. E esperou que Blake prosseguisse.
	Voc sabe que nosso casamento foi movido por circunstncias... digamos... um tanto singulares. Em outras
palavras, no podemos ser considerados como um casal... normal.
Cassie ergueu as sobrancelhas, com ar de dvida.
	Explique-se melhor, Blake.
	Bem, a maioria das pessoas costumam se casar depois de um perodo de namoro e noivado...
	Nesse ponto, concordo com voc.  Cassie fitava-o com intensidade, tentando traduzir, atravs dos olhos, o profundo sentimento que no tinha coragem de revelar.  Mas agora, que estamos casados, talvez possamos recuperar
as etapas que deixamos para trs.
	Talvez  ele repetiu, desviando os olhos.  Mas creio que precisaremos de algum tempo, para isso.
	Como assim?
Estendendo a mo, Blake puxou-a para perto de si, no sof. E sua voz soou nitidamente tensa, ao dizer:
	Cassie, temos de nos conhecer melhor, antes de...  ele hesitava.  Antes de partirmos para uma intimidade maior.
Uma terrvel suspeita ergueu-se no ntimo de Cassie que, com voz trmula, indagou:
	Blake, voc est... me rejeitando? Ou terei interpretado mal suas palavras?
Um sorriso amargo estampou-se no rosto msculo, de traos perfeitos.
	Como eu poderia rejeitar uma das pessoas a quem mais estimo, em minha vida?  ele retrucou.
	Ento, onde voc pretende chegar?  ela o questionou, invadida por um sentimento de aflio.  Por favor, fale de modo franco e direto.
Ele baixou os olhos. E Cassie insistiu:
	O que, exatamente, voc quer me dizer?
	Eu a avisei que no seria fcil...
	Fale  Cassie ordenou, colocando o clice sobre a mesinha de centro.  Qual  o problema? O que est acontecendo?
Ele sorveu o ltimo gole de licor e depositou o clice ao lado do de Cassie, que ainda estava pelo meio. S ento voltou a fit-la nos olhos:
	Voc... estaria preparada para ouvir uma confisso?
	No sei. Mas, pelo que vejo, no me resta outra alternativa.
Levantando-se, Blake comeou a andar nervosamente, de um lado a outro da sala. Depois, deteve-se na janela e ali ficou por alguns instantes, contemplando o jardim. Quando por fim voltou-se para Cassie, sua fisionomia estava um pouco mais serena... Tanto quanto a voz, grave e pausada:
	Voc sabe por que me casei com voc, Cassie Warrington Campbell?
Ela no respondeu. Apenas levantou-se e, aproximando-se, encarou-o com severidade.
	Diga voc mesmo, Blake Campbell.  Porm, no esperou pela resposta. E num tom de revolta, concluiu: 
Foi por piedade, no  mesmo? Voc estava morrendo de pena desta pobre garotinha maluca e ftil... Da, ofereceu-se para o sacrifcio.
	Como pode ser to cruel, Cassie?  ele reagiu, chocado. 
	O que voc quer que eu pense, depois de todas essas insinuaes?  Cruzando os braos, ela pediu, com vee
mncia:  Fale de uma vez por todas e, por favor, seja mais objetivo. Por que casou-se comigo, afinal?
	Para evitar que voc cometesse uma tolice  ele confessou, de um s flego.  Voc fez questo de deixar bem
claro que se entregaria ao primeiro, pretendente que aparecesse. E isso me deixou em pnico.
	Por qu?  ela o questionou, asperamente.  Voc ficou com medo que eu dilapidasse o respeitvel patrimnio
da famlia?
	Reconheo que esse fator me preocupou, tambm. Mas no foi o principal motivo que me levou a despos-la.
	Ento, por qu?
	Para evitar que voc sofresse.
Um riso amargo brotou da garganta de Cassie, que com um gesto carregado de irritao afastou uma mecha de cabelos que caa-lhe na testa.
	E voc por acaso tem noo da dor que est me causando, neste exato instante?
	No tenho a menor inteno de faz-la sofrer, Cassie.
	Mesmo assim, est conseguindo... E como!
	Vamos parar com essa guerra de palavras, sim?  ele pediu, com uma expresso de tristeza e cansao.  Sejamos mais compreensivos, pois isto nos ajudar... a ambos.
	Voc ainda no respondeu o motivo que o levou a me desposar.  A voz de Cassie soava alterada.  Foi para livrar-me da garras de algum lobo mau? E isso?
	Achei que, tomando-a como esposa, lhe daria tempo para refletir melhor sobre aquela deciso maluca... E reconsiderar sua posio a respeito de sexo e de amor.
	E agora, o que voc pretende, Blake Campbell?
	Dar tempo ao tempo. Voc precisa pensar bem, Cassie, sobre o que deseja da vida.
"Eu s quero voc, querido", ela respondeu, em pensamento. Mas a dor de ser rejeitada falava muito alto, em seu corao. E era impossvel calar-se.
	Deixe-me ver se entendi bem seu ponto de vista, Blake:
voc se casou comigo e, agora que me tem em suas mos, vai me trancar naquela sute e deixar-me l, refletindo longamente sobre meus anseios e ideais de vida.
	J chega de ironias  ele protestou, ofendido.  Se agi desse modo, foi com a melhor inteno do mundo.
	Sim, voc j disse isso  ela afirmou, num tom ferino.
	Foi para me salvar do bicho-papo, para preservar o patrimnio de minha famlia e, inclusive, seu cargo na presidncia da Warrington Construction.
	Nunca mais repita isso!  ele ordenou, estarrecido.
	Como pode insinuar que estou agindo por mero interesse, quando h muito mais em jogo do que um simples emprego?
	No  to simples assim, meu caro  ela retrucou, sarcstica.  Afinal, um cargo dessa categoria no  fcil de se conquistar.
Blake engoliu em seco, antes de dizer:
	Vou ignorar esta ltima ofensa, pois sei o quanto voc est alterada.
	Sabe mesmo?  As lgrimas inundaram os olhos de Cassie. Algumas escorreram-lhe pelo rosto e ela enxugou-as com um gesto nervoso.  Pois duvido que voc seja capaz sequer de imaginar como me sinto, neste exato momento!
O que est lhe parecendo terrvel, agora,  no fundo apenas a minha vontade de deix-la livre  ele declarou, com veemncia.  Livre para decidir o que far de seu futuro... E a salvo de oportunistas inescrupulosos, que sem dvida a magoariam muito mais do que estou fazendo.
	Oh, sim, Blake Campbell, voc  mesmo um heri.
Sacrificou-se, desposando a maluquinha da Cassie, s para preserv-la dos perigos do mundo.
	J basta dessas ofensas inteis. J que no quer acreditar em mim, eu no insistirei mais. No poderei nem
mesmo terminar de lhe dizer o que tanto preciso.
	No estou nem um pouco interessada  Cassie afirmou, no auge da fria.  Sabe como me sinto, Blake? 
E sem esperar pela resposta, acrescentou:  Trada. Voc me enganou. Voc me manipulou e agora estou de mos atadas.
	Escute...
	S h uma coisa que no entendo, em tudo isso.  Fitando-o no fundo dos olhos, Cassie finalizou:  Como
voc pde me beijar daquele jeito, no altar, mesmo no sentindo nada por mim. A menos que voc sempre tenha sido um timo ator e eu jamais tenha me dado conta...
	Se voc me deixasse terminar-minha confisso, teria a resposta para essa pergunta  Blake sentenciou, com amargura.
	Ora, no me venha com subterfgios. Fale sem rodeios, sim?

	Sabe por que a beijei daquele jeito, Cassie?  ele disse, aps um longo momento.  Porque alm de meu carinho, e dos cuidados por voc, eu tambm a desejo.
	O qu?  Cassie arregalou os olhos azuis, numa expresso de espanto.
	Isso no me aconteceu apenas hoje, no altar. J me flagrei, por diversas vezes, com esse sentimento. H ocasies em que eu quero tanto...
	Mas...  Cassie estava perplexa.
Sem esperar que ela conclusse a frase, Blake prosseguiu:
	Nas primeiras vezes em que esse sentimento me ocorreu, fiquei muito confuso e, at, horrorizado. Afinal, eu a considerava como a irm caula que jamais tive. E meu desejo parecia muito prximo de algo proibido, entende?
	No  Cassie confessou, num fio de voz. Estava atnita demais para compreender o que quer que fosse.
	Por um bom tempo, lutei contra esse desejo. E consegui control-lo. Mesmo porque, ele no vinha com muita frequncia. Mas hoje, na igreja, ele se tornou poderoso demais.
Alis, neste exato momento, no consigo me manter indiferente a voc...
	Mas ento por qu?  Ela indagou,  beira do descontrole.  Se voc me quer...
Aproximando-se, Blake tocou-lhe a face, numa suave carcia.
	Pode acreditar numa coisa, Cassie... Se eu estivesse diante de qualquer outra mulher, no hesitaria em lev-la para minha sute, onde a possuiria, at o amanhecer. Mas em se tratando de voc...
	O que h de errado comigo?
	Nada de errado, minha querida. Apenas, acho que devemos amadurecer nossa relao, antes de um contato mais ntimo.
O que Blake no ousava dizer era que em seu corao no havia apenas desejo. Um sentimento poderoso, que ia muito alm da ternura e carinho que sempre sentira por Cassie, ia se instalando aos poucos. E ele precisava de tempo entender que sentimento era esse... Paixo? Amor? E, nesse caso, Cassie poderia corresponder? Todas essas perguntas o atormentavam. Mas ele era obrigado a mant-las em segredo, j que tinha certeza de que Cassie no o compreenderia.
	Para que haja uma verdadeira unio entre um homem e uma mulher,  preciso muito mais do que a mera atrao fsica  ele sentenciou.  Voc no concorda com isso?
	De certo modo, sim. Mas voc no acha que, se existe desejo...  Ela hesitou, antes de concluir a frase:  Os outros sentimentos podero vir, com o tempo?
	Voc est dizendo que tambm me deseja?  Blake perguntou, ansioso.
	E voc tem alguma dvida, a respeito?  Cassie retrucou.  Mesmo depois do modo como correspondi ao seu beijo, hoje  tarde, no altar?
Os olhos de Blake se iluminaram... Mas foi apenas por um instante. Sua expresso tornou-se triste e sombria, enquanto ele argumentava:
	Voc talvez esteja apenas impressionada comigo... E comum uma garota se sentir assim, perante um homem mais velho.
	Droga!  ela exclamou, indignada.  Voc ainda no se convenceu de que deixei de ser criana e tornei uma
mulher?
	Tudo bem, Cassie. Mas, ainda assim, voc  jovem e inexperiente. Daqui a dezesseis anos, eu terei cinquenta e,
voc, apenas trinta e sete.
	Isso faria uma diferena to grande assim?
Antes que Blake respondesse, o telefone tocou, fazendo Cassie estremecer. Quase ao mesmo tempo, o velho carrilho indicou meia-noite, com doze badaladas.
	Al?  Blake atendeu a ligao.  Sim, sou eu. Quem est falando? Ah,  voc, Jeremy? Mas o que aconteceu? E
quando foi isso? Certo... Estarei l o mais depressa que puder.  Blake desligou.
	O que houve?  Cassie indagou, aflita.
	Dorothy passou mal, Jeremy a est levando para a Santa Casa  Blake respondeu, a caminho da escada, que subiu de dois em dois degraus.
Cassie o seguiu at o andar superior da casa.
	Ela... vai ficar bem?  Cassie perguntou, com voz tremula.
	Espero que sim  Blake respondeu, parando junto  porta de sua sute.
	E quanto ao beb?
	No sei, Cassie. Mas darei notcias assim que me in teirar da situao.
	Irei com voc.
	No  ele discordou, fitando-a com imensa ternura.  Fique aqui e procure descansar. Afinal...
	  minha  noite  de  npcias   ela  completou, amargamente.
	Darei notcias  Blake repetiu, abrindo a porta.  Fique tranquila.
	Por quem voc me toma?  ela retrucou, tristemente.
 Por algum ser insensvel? Como poderei ficar tranquila se Dorothy est passando mal e se acabo de ser rejeitada pelo homem que amo?
Mas Blake j no a ouvia. E apenas o silncio respondeu  sua aflita indagao.

CAPITULO IX

A primeira coisa que Cassie notou, ao abrir os olhos, foi o relgio digital, no criado-mudo, que marcava nove e dez. Mas aquele no era o seu relgio... Ela pensou, por um instante. E ento compreendeu onde estava: na casa de Blake. Na sute que ele lhe oferecera.
Uma onda de tristeza a invadiu, ao lembrar-se de que sua noite de npcias fora por demais solitria. Tinha ficado acordada at altas horas, lutando para no ceder a angstia. Por fim, exausta tanto fsica quanto emocional-mente, adormecera.
De sbito, Cassie lembrou-se do telefonema de Jeremy, na noite anterior. Dorothy havia passado mal e ele a levara  Santa Casa. Blake sara apressado, para ir at l. E prometera ligar, dando notcias. Mas no cumprira sua palavra. O que teria acontecido?, ela se perguntou, aflita.
Sentando-se na cama, lanou um olhar angustiado em direo ao telefone, que ficava ao lado do relgio. Onde estaria Blake? E quanto a Dorothy e o beb?
Levantando-se, Cassie decidiu que iria at a Santa Casa, para se inteirar da situao. A caminho do banheiro, parou subitamente e olhou para si mesma. Ainda estava usando a camisola que comprara, para sua frustrada lua-de-mel.
As lgrimas inundaram-lhe os olhos. Talvez houvesse cometido o maior erro de sua vida, ao aceitar casar-se com Blake, que s a desposara para evitar que ela se entregasse a outro homem.
Cassie meneou a cabea, sentindo-se desamparada e confusa. Que conversa estranha tivera com Blake, na noite anterior. Ele confessara que, s vezes, a desejava. Mas, se assim era, por que se recusava a exercer esse desejo?
Porque Blake no a amava, ela concluiu, amargamente. E, pelo visto, jamais a amaria.
Momentos depois, enquanto tomava uma ducha, Cassie pensava nas esperanas que tinha acalentado, a respeito daquele homem. Talvez houvesse sonhado alto demais, esperando o impossvel.
Assim, sua determinao de conquist-lo cedia lugar a uma sensao de derrota, tornando-a mais triste e solitria do que nunca.
O que deveria fazer?
Antes que Cassie pudesse conjeturar sobre essa questo, o telefone tocou, em seu quarto. Desligando a ducha, ela envolveu-se numa toalha felpuda e correu a atender.
	Al?
	Cassie?
	Blake! Por que no me ligou, ontem  noite? Estou morrendo de preocupao.
	Eu no queria perturb-la. Achei que voc deveria descansar e...
	Est bem  ela o interrompeu.  Conte-me sobre Dorothy.
	Felizmente, foi s um susto.
	E o beb?
	So e salvo, tanto quanto Dorothy, que apenas sofreu uma pequena hemorragia.
	Graas a Deus!  Cassie exclamou, aliviada.
	S que ela ter de ficar de repouso, at o final da gravidez.
	Menos mal  Cassie comentou.  Se  para o bem de Dorothy e do beb, acho que vale o sacrifcio, no  mesmo?
	Claro. Mas Dorothy est muito angustiada, com isso.
	Por qu?
	Bem, ela  minha secretria, meu brao direito na Warrington Construction. E sabe que, neste ms, estaremos particularmente atribulados.
	Mas Dorothy no pode se preocupar com trabalho, a esta altura dos acontecimentos  Cassie afirmou, com veemencia.  Alis, no deve pensar em mais nada, exceto em seu bem-estar e no do beb.
	Eu e Jeremy repetimos exatamente isso para ela, durante boa parte da noite. Mas no sei se conseguimos convenc-la. Dorothy a todo momento falava sobre o quanto
ser difcil encontrar, em to pouco tempo, uma secretria para substitu-la.  Aps uma pausa, Blake acrescentou:
	E, pensando bem, ela no deixa de ter razo.
	Ser mesmo to difcil assim?  Cassie argumentou.
	Existem boas secretrias, que...
	O problema  que no terei tempo de ensinar-lhe todo o servio. Daqui a trs semanas, por exemplo, haver um evento muito importante, na Warrington. Trata-se do encontro anual com nossos fornecedores. Dorothy j deixou tudo planejado, mas mesmo assim far muita falta.
	Posso imaginar. Bem, o importante  que ela e o beb esto salvos.
	Tem razo.  Blake pareceu hesitar, antes de dizer:
	E quanto a voc, Cassie? Como est?
"Triste e sem esperanas", ela respondeu, em pensamento. Ento, imprimindo  voz uma segurana que estava longe de possuir, afirmou:
	Custei um pouco a dormir mas,-afinal, descansei. E agora, que acabo de tomar uma ducha, sinto-me mais revigorada.
	Otimo.
	E quanto a voc, Blake? Deve estar exausto.
	Nem tanto. Tomei um bom caf da manh, com Jeremy, e agora estou a caminho do escritrio.
	Por que no passa por aqui, para tomar um banho e trocar de roupa?
	No ser possvel. Tenho um compromisso s dez em ponto, com os proprietrios do New Paradise.  E Blake explicou:  Trata-se de um condomnio, que a Warrington Construction construir em breve. Falta apenas acertar os ltimos detalhes.
	Ento, desejo-lhe boa sorte.
	Obrigado. Tenha um bom dia, Cassie. At mais tarde.
	At...  E Cassie desligou. Mal havia se afastado do telefone, quando este soou novamente. Voltando sobre os prprios passos, ela atendeu.  Pronto?
	Oi, amiga. Espero no t-la acordado.
Reconhecendo a voz de Janette, ela sorriu:
	Que bom que voc telefonou.
	Ainda bem que voc diz isso, querida. Sabe, Samantha ficou furiosa, quando lhe contei que ia ligar para voc.
Chamou-me de intrometida e acusou-me de perturbar sua lua-de-mel.
	Ao contrrio...  Cassie suspirou, enquanto se deixava cair sobre a cama.  Eu estava mesmo precisando falar com algum.
A tristeza, subentendida na voz de Cassie, no passou despercebida a Janette.
	O que houve, querida? Voc parece...
	Se quer mesmo saber, estou arrasada  Cassie de sabafou.
	Mas... no  possvel  Janette reagiu, entre surpresa e decepcionada.  Voc e Blake pareciam to apaixonados, ontem...
	As aparncias enganam, amiga. E como!
	Mas o que aconteceu?
	No aconteceu  Cassie declarou, sem ocultar a amargura.  Este  o problema.
	Estou perplexa  Janette confessou.  Simplesmente no consigo entender porque...
	Blake no me ama  Cassie a interrompeu, com lgrimas nos olhos.  Ele apenas admitiu que s vezes sente desejo por mim. Mas isso  tudo.
	Ento voc no tem motivos para ficar angustiada. Se existe desejo,  porque nem tudo est perdido, no acha?
	Eu pensava assim... Mas a realidade  bem diferente. Blake s se casou comigo para me salvar de provveis oportunistas.
	Como?  Janette indagou, sem entender.
	Depois que fiz aquela cena lamentvel, a respeito de sexo e casamento...
	Sim, eu sei  Janette apartou.  Mas voc estava disposta a conquist-lo. O que a fez desistir, to rpido?
	Eu j disse: a dura realidade dos fatos. Uma coisa  sonhar e, outra, viver. Blake me manter junto dele por algum tempo, at que eu desista da ideia de desposar o primeiro pretendente que aparecer.
	Mas voc nunca pensou em levar isso a srio, no  mesmo?
	Ns sabemos disso, Janette. Mas Blake, no.
	Deixe-o continuar assim, querida. E no poupe seus encantos, para conquist-lo.
	Seria intil  Cassie opinou, desalentada.  O melhor que tenho a fazer  ir embora desta casa e pedir o divrcio. Assim, Blake poder dar seguimento  vida dele.
	E o que ser de voc, se sem o amor desse homem  sua vida no tem sentido?
	Boa pergunta...  Com um gesto nervoso, Cassie enxugou uma lgrima.
Aps um breve silncio, Janette indagou:
	Onde est Blake, agora?
	A caminho do escritrio, onde ter um dia intenso e atribulado, j que no poder contar com sua secretria.
 E Cassie contou o que havia acontecido com Dorothy. 
Em meio  narrativa, Janette a interrompeu:
	Espere um minuto, amiga. Voc-est dizendo que Blake ficar sem secretria, por algum tempo?
	Mais precisamente, durante os prximos trs meses. Mas, naturalmente, ele arranjar uma substituta. S que est muito preocupado, pois sabe o quanto ser difcil, mesmo para uma secretria eficiente, acompanhar o trabalho da empresa, que neste ms estar particularmente sobrecarregada.
Mais um breve silncio se passou, antes que Janette perguntasse:
	E o que voc est esperando, garota?
	Como disse?
	O que est fazendo a, parada, em vez de candidatar-se ao cargo?
	Desculpe, Janette, mas no estou acompanhando seu raciocnio.
	Acorde, Cassie Warrington Campbell!  Janette encorajou-a, com seu entusiasmo habitual.  Voc est desperdiando uma chance imensa de provar a Blake o quanto pode ser madura e competente. J se esqueceu do que o padre disse ontem, no altar? Vocs deveriam se apoiar na alegria e nas dificuldades, lembra-se?
	Mas do que, afinal, voc est falando?  Cassie reagiu, impaciente.
	De sua falta de viso. Voc nunca teve uma chance to grande conquistar Blake, como agora.
	Cada vez entendo menos.
	Est bem, criana... Vou explicar direitinho o que deve fazer: assuma o cargo de secretria de Blake. Ajude-o, neste momento difcil. E faa aquele cabea-dura entender, de uma vez por todas, o quanto voc  importante na vida dele. Agora, desligue o telefone e no perca mais tempo.
V para a Warrington Construction e ocupe o lugar de Dorothy, antes que ele a substitua por outra pessoa.
	Janette, voc enlouqueceu?
	Sou eu quem deveria lhe perguntar isso, amiga. Onde  que j se viu ficar a, se lamentando, quando sua felicidade est em jogo?
Mas Cassie continuava reagindo  ideia:
	Voc est se esquecendo de um detalhe muito simples, Janette... Eu nunca desempenhei a funo de secretria, quanto mais numa empresa to grande quanto a...
	Sua  Janette completou, simplesmente.
	O que disse?
	A Warrington Construction lhe pertence, lembra-se? Seu pai a deixou para voc. Pare com essa covardia, arregace as mangas e v  luta.
	Covardia?  Cassie repetiu, exasperada.  Estou apenas sendo sensata, Janette!
	Pois, no jogo do amor, a sensatez conta muito pouco. Agora, vou desligar. Seno, voc ficar durante horas tentando me convencer de que estou maluca.
	E est mesmo.
	Mais louca  voc, que desistiu to rpido de lutar por seu amor... Ou ser que voc no ama Blake de verdade?
	Que histria  essa?  Cassie retrucou, ofendida.  Voc sabe muito bem o quanto o quero.
	Ento, prove isso a ele... E tambm a si mesma Tchau, amiga. Desejo-lhe toda a sorte do mundo.  E Janette desligou.
	Espere...  Cassie pediu. Mas j era tarde.  Que ideia mais absurda  murmurou, meneando a cabea.
Mas  medida que a manh avanava, a sugesto de Janette j no lhe parecia to fora de propsito. Pouco antes da hora do almoo, Cassie encontrava-se num estado de terrvel agitao. Janette teria razo? Ela realmente estava deixando passar uma grande chance de conquistar Blake? Ou, ao menos, de auxili-lo num momento difcil?
Eram onze e quinze quando Cassie tomou uma resoluo. Pouco depois, ela chamava um txi, pelo telefone. Estava tensa demais para dirigir.
Minha nossa!  Blake exclamou, deixando-se cair sobre sua cadeira. Debruando-se sobre a mesa de trabalho, perguntou-se como chegaria ao final daquele dia.
A empresa parecia de pernas para o ar, sem a presena de Dorothy, que alis fizera muita falta na reunio que ele havia acabado de encerrar, com o pessoal do Condomnio New Paradise.
Blake no saberia dizer de onde havia tirado foras, para discutir os ltimos detalhes do projeto, com os proprietrios. Na verdade, no tinha ideia de como conseguia manter-se em p, depois de uma noite particularmente difcil.
Sentia-se aliviado por saber que Dorothy estaria bem, desde que repousasse, de acordo com as recomendaes mdicas. Mas havia muitos outros problemas que o perturbavam.
Cassie, por exemplo... A doce, encantadora e terrivelmente sensual Cassie Warrington Campbell, a quem ele havia tomado como esposa.
Um sorriso amargo insinuou-se nos lbios de Blake. A vida por vezes colocava-o em situaes estranhas... Como era possvel sentir desejo pela prpria esposa e no poder realiz-lo? O que o impedira, na noite anterior, de tornar Cassie mulher?
	Os meus princpios  ele respondeu, baixinho. Em s conscincia, no podia aproveitar-se da ingenuidade de Cassie. Teria sido to fcil seduzi-la, com sua vasta experincia no campo do amor... Entretanto, seus escrpulos no lhe permitiam agir assim.
J esperava que Cassie reagisse mal, ao ouvi-lo confessar que s a desposara para evitar que ela cometesse a maior tolice de sua vida. Mas houvera um momento, durante a conversa de ambos, em que ele se sentira fraquejar terrivelmente. E por um triz no tomara uma atitude da qual sem dvida se arrependeria depois.
A questo era que no se sentia feliz, agora, mesmo depois de assumir uma atitude limpa e correta, com Cassie.
Blake lanou um olhar desalentado, para sua mesa. Havia ali vrias pastas, que teria de estudar, at o final do dia. Entretanto, faltava-lhe nimo para faz-lo.
Mesmo assim, era preciso erguer a cabea, arranjar energias para levar adiante mais um dia de trabalho.
Com um profundo suspiro, ele tentou concentrar-se no assunto mais urgente que tinha a tratar. Pegando uma pasta vermelha, abriu-a e comeou a estudar seu contedo.
A princpio, foi muito difcil afastar da mente as inquietaes. Mas ao longo dos anos Blake aprendera a desenvolver uma boa dose de disciplina, em seu trabalho. Afinal, se parasse de produzir a cada vez que tivesse um srio problema em mos, a Warrington Construction j teria falido h muito tempo.
O telefone tocou, obrigando-o a interromper a leitura.
	Espero que no sejam mais problemas  Blake pensou, em voz alta, antes de atender.
Tratava-se de um funcionrio do departamento de Recursos Humanos da empresa, avisando-o que j havia entrado em contato com uma agncia de empregos, a fim de encontrar uma pessoa que substitusse Dorothy.
	Se o senhor quiser que uma das secretrias de nosso departamento ocupe o lugar dela, por enquanto...  o funcionrio ofereceu.
	No  preciso, Richard  disse Blake.  No quero deslocar nenhuma de suas funcionrias. A menos que de moremos a encontrar uma boa substituta para Dorothy...
	Isso no ser fcil  o funcionrio opinou.  Pois Dorothy  a eficincia em pessoa.
	 verdade  Blake concordou, desanimado.  Enfim, talvez tenhamos sorte de encontrar uma pessoa eficiente. 
	Esperemos que sim. A agncia que consultei  uma das melhores da cidade.
	Certo. Ento, vamos esperar por um milagre. Obrigado, Richard. E at logo.
	At logo, sr. Campbell.
Blake desligou e voltou ao trabalho.
Cerca de vinte minutos mais tarde, algum bateu  porta. Blake conteve uma imprecao. Se continuassem interrompendo-o daquela maneira, ele nunca chegaria ao fim da leitura do documento.
	Entre  ordenou, elevando a voz.
	Com licena.
Boquiaberto, ele recostou-se na cadeira. De todas as pessoas que esperava ver, naquele momento, Cassie era a ltima...
	O que faz por aqui?  indagou.
	Vim trazer-lhe isto.  Ela exibia um terno, num cabide coberto por um oleado transparente. Em seguida, pegando uma pequena valise, anunciou:  Os complementos para o traje esto aqui. Espero ter escolhido bem.  E colocou tudo sobre o pequeno sof que havia na sala, prximo  mesa de trabalho de Blake.  Tive de invadir sua sute, sabe? Afinal, era o nico jeito de trazer-lhe uma muda de roupa.
	Mas o que significa isso, Cassie?
	Significa que voc no vai passar o dia com uma roupa que vestiu ontem  noite. Portanto, trate de ir at l, se trocar.  Ela apontava uma porta contgua, que dava para um toalete.
Blake fitou-a com estranheza. Cassie parecia... diferente. No lembrava, nem um pouco, a garota frgil e triste, da noite anterior. Alm do mais, estava vestida de maneira elegante e sbria. Usava um tailleur de corte clssico, bege, meias de seda e sapatos de salto. Seus cabelos negros, presos num coque, faziam seu rosto delicado parecer um antigo camafeu.
	Por que est me olhando assim?  ela perguntou, com aquele ar inocente, que Blake conhecia muito bem.
Cassie sempre assumia essa expresso, quando estava prestes a cometer uma de suas impagveis travessuras.
"Mas Cassie no  mais uma criana", ele pensou, invadido por uma onda de inquietao.
	V se vestir, meu caro esposo  ela ordenou, com uma ponta de ironia.  Depois, d-me alguns minutos de sua preciosa ateno, pois preciso inform-lo sobre uma novidade.
	Do que se trata?  Blake indagou, curioso.
Como resposta, Cassie apenas sorriu e apontou a porta do toalete.
	Est bem  Blake cedeu, por fim.  J estou indo.
 Pegando o cabide e a valise, ele dirigiu-se ao toalete e voltou, j trocado, em poucos minutos.
	Minha nossa!  Cassie exclamou, levando a mo  testa, num gesto de exagerada dramaticidade.  Sempre soube que os homens se aprontam mais rpido dos que as mulheres. Mas voc acaba de quebrar um recorde, meu caro esposo!
Ele meneou a cabea:
	Voc e suas molecagens... Se soubesse o quanto estou preocupado, no teria coragem de rir  minha custa.
"E se voc soubesse que estou fazendo piadas apenas para disfarar meu profundo nervosismo, o que diria?", Cassie retrucou, mentalmente.
No era a primeira vez que recorria ao humor para enfrentar uma situao difcil. J agira assim em outras circunstncias e, por vezes, dava resultado.
	Sobre o que voc quer falar comigo, Cassie?  Blake indagou, interrompendo-lhe os pensamentos.
	Voc j arranjou uma substituta para Dorothy?  ela respondeu, com outra pergunta.
	Ainda no. Um funcionrio do Departamento de Recursos Humanos contatou uma boa agncia de empregos, mas...
	Pois considere este problema resolvido  ela o interrompeu.
	Como?
	Voc j tem uma nova secretria  Cassie declarou, com um largo sorriso.
	J?  ele repetiu, confuso.
	Sim. Na verdade, voc est olhando para ela, neste exato momento.
Blake piscou os olhos.
	Cassie, se esta  uma tentativa de brincadeira, devo avis-la que...
	Estou falando srio  ela afirmou, categrica antes que Blake conclusse a frase.  Apenas, quero inform-lo de que vou ocupar o cargo de Dorothy, at que ela retorne  empresa.
	Mas...  Ele a fitava, perplexo.  Isso demorar vrios meses.
	Eu sei  Cassie respondeu, calmamente.  E agora pare de me olhar como se eu fosse um marciano e diga-me o que tenho a fazer.
	Cassie...
Ela assumiu uma expresso severa:
	Escute aqui, Blake... Quer voc queira, ou no, sou uma mulher adulta, razoavelmente inteligente e disposta a dar tudo de mim, para atingir um desempenho satisfatrio.
	No duvido de nada disso, mas o fato  que, para ocupar esse posto, seria preciso que voc tivesse experincia.
	 engraado, no?  Ela o encarava, com firmeza.  Os jovens sofrem muito, para conseguir seu primeiro emprego. Em todos os lugares, a resposta  sempre a mesa: "Sinto muito, meu caro, mas voc no tem experincia..." Droga, como  possvel adquiri-la, se no nos deixam trabalhar?
	Sbio argumento, Cassie. Mas a questo no  esta.
O telefone tocou, sobre a mesa de Blake. Cassie adiantou-se e atendeu a ligao.
	Al?
	Aqui  da agncia Good-Work  disse uma voz feminina, num tom gentil.  Acabamos de encontrar duas candidatas para o cargo de secretria que nos foi solicitado.
Gostaramos de marcar um horrio, para que essas candidatas se apresentassem e...
	Sinto muito, senhorita  Cassie aparteou.  Mas a vaga j foi preenchida. Mesmo assim, agradecemos sua gentileza. Tenha um bom dia, sim? Obrigada.  E desligou.
	Era da agncia de empregos?  Blake indagou,  beira da exasperao. 
	Sim. Mas, como voc mesmo ouviu, eu disse que...
	Sei muito bem o que voc disse!  Blake exclamou, indignado.
	Santo Deus, que modo horrvel de se tratar uma secretria!  Cassie demonstrava uma calma e confiana que estava longe de possuir.  No me diga que voc gritava com Dorothy dessa maneira...
	Eu faria isso, se ela me tirasse do srio, tal como voc est fazendo, agora.
	Relaxe, Blake.  Cassie forjou um sorriso.  E d-me, ao menos, a chance de provar minha capacidade. Experimente trabalhar comigo, por alguns dias. Se no der certo, ambos compreenderemos.
Blake suspirou. Mas, por fim, cedeu.
	Conheo-a o suficiente para saber que voc nunca de siste de uma ideia, mesmo que ela seja absurda.
	Voc est falando de nosso casamento, Blake?
A pergunta pegou-o de surpresa. E, sem esperar pela resposta, Cassie afirmou:
	No se preocupe... Daqui por diante, no lhe darei mais trabalho. Agora, passe-me algumas dicas sobre meu novo emprego.
	Isso no vai atrapalh-la, nos exames para a universidade?
	De jeito nenhum. Muitas pessoas trabalham e estudam, no  mesmo? Por que eu seria diferente?
Blake no respondeu. Mas, no fundo, continuava firme em sua convico: por mais que Cassie se esforasse, ela no conseguiria um bom desempenho. No por uma questo de incapacidade, mas por falta de experincia.
Vinte dias se passaram. E, contra todas as expectativas de Blake, Cassie estava se saindo muito bem. Na verdade, parecia ter nascido para ocupar aquele cargo. Desempenhava suas funes com incrvel eficincia e, o que era mais importante: com muito bom humor.
Do porteiro ao funcionrio mais graduado... Todos adoravam Cassie.
A prova de fogo, porm, estava por vir: o encontro anual com os fornecedores da Warrington Construction. E Blake se perguntava como Cassie se sairia, no evento.
Ela surpreendeu-o novamente, com sua postura calma, seu olhar atento a tudo o que se passava, sua fineza no trato social. Mas tudo isso pouco representava, diante do encanto que Cassie espalhava a seu redor. Os participantes do evento dedicavam-lhe deferncia e admirao. Por vezes, Blake flagrava um ou outro mirando Cassie de maneira insinuante. Ela, porm, no parecia se dar conta disso. Ou, se percebia, pouco se importava.
Quanto  relao de ambos, permanecia estagnada, ou melhor: no mesmo ponto em que estava, na noite do casamento.
Quando ambos chegavam em casa, exaustos depois de um dia atribulado, Cassie era a primeira a pedir licena para se recolher. Em algumas ocasies, ele a convidava para tomar um drinque, mas Cassie declinava do convite, pretextando cansao.
Nos fins de semana, quando poderiam passar algumas horas juntos, ela saa cedo de casa, para visitar Olive e Alexander, ou fazer um passeio com Samantha e Janette.
Blake j estava certo de que Cassie o evitava propositadamente. E, o que era pior, no poderia censur-la, por isso. Afinal, ele a rejeitara... E embora houvesse agido assim por uma questo de princpios, isso em nada atenuava a dor que causara em Cassie.
Ainda agora, ele se lembrava do olhar cheio de mgoa com que ela o fitara, na noite do casamento. Ah, como fora difcil controlar-se, naquele momento, para no tom-la nos braos!
O encontro com os fornecedores da Warrington Construction terminou com um grande jantar de gala, realizado no Gary's House.
Blake, que como coordenador do evento tinha de distribuir sua ateno para todos, mal conseguia tirar os olhos de Cassie. Decididamente, ela estava exuberante, naquela noite.
Usando um vestido preto, justo, com um ousado decote, ela nunca lhe parecera to bela e desejvel. E, a julgar por certos olhares cobiosos, de outros homens, ele no era o nico a pensar assim.
Como era de praxe, Blake encerrou o evento com um breve discurso, no final do jantar. Ento, algum sugeriu que Cassie tambm falasse. E todos apoiaram a ideia.
Blake lanou-lhe um olhar apreensivo. Sabia que Cassie poderia se intimidar, ao tornar-se o centro das atenes. Por isso ficou perplexo ao v-la falar com desenvoltura, agradecendo a presena de todos e desejando que no ano seguinte pudessem se encontrar novamente, depois de atingir as metas de trabalho estabelecidas durante o evento.
No final de seu discurso, Cassie mudou o tom de voz. E foi como se falasse, em particular, a cada um dos ouvintes:
 No decorrer de nosso encontro, nos ltimos trs dias, tive oportunidade de aprender uma grande lio: a de que qualquer trabalho deve ser realizado com muita fora e ob-jetividade, mas sem nunca deixar de lado os principais valores humanos: respeito, estima, sinceridade e tantos outros. Recebi esta herana de meu pai, sabem? Ele me ensinou que os bens materiais, apesar de nos proporcionarem muito conforto, no so os que mais contam, em nossa vida. E quero declarar, aqui, que fiquei muito feliz ao ver meu marido dirigindo a Warrington Construction com total eficincia, aliada a um grande senso de humanidade. Espero, e sei, que ele agir assim, sempre.  esta f que me faz acreditar que a Warrington Construction continuar crescendo. Muito obrigada a todos.
Os aplausos soaram, calorosos, no salo principal do Gary's House.
Cassie foi rodeada por um verdadeiro enxame de admiradores. E Blake experimentou uma sensao estranha... Estava orgulhoso, mas ao mesmo tempo enciumado... No porque Cassie, sem dvida alguma, fora a pessoa mais brilhante do evento. Mas porque desejava t-la somente para si, ainda que fosse por alguns instantes, apenas. Queria abra-la, parabeniz-la... E, com toda certeza, beij-la e falar-lhe sobre certos assuntos, que s o corao poderia compreender.
Num dado momento, ela tocou-lhe o ombro e disse, num tom discreto:
	Estou indo para casa.
	Como?
	Preciso tratar de um assunto urgente.
	Mas...
	At mais tarde  Cassie o interrompeu e, depois de despedir-se de cada participante do evento, saiu.
Foi com um sentimento de quase incontrolvel impacincia que Blake permaneceu no restaurante, at que o ltimo convidado partisse. S ento pde ir para a casa, o corao pulsando descompassado como o de um colegial, ante a perspectiva de encontrar-se com a primeira namorada.
E ele compreendeu, enfim, que Cassie havia se tornado a pessoa mais importante de sua vida.

EPLOGO

Ao entrar em casa, Blake deparou com duas laias, grandes, na sala de estar. Ouviu passos na escada e voltou-se naquela direo, a tempo de ver Cassie descendo com uma valise de mo.
	O que est fazendo?  perguntou, confuso.
	Cuidando daquele assunto urgente de que lhe falei  ela respondeu e completou:  Minha independncia.
Blake fitou-a no fundo dos olhos azuis, que jamais haviam lhe parecido to luminosos. Havia, neles, uma expresso determinada, que o assustou.
	Voc vai... viajar?  indagou, temeroso.
	Vou deix-lo em paz.  Cuidadosamente, ela colocou a valise ao lado das malas.
	Espere um pouco, Cassie.  Ele aproximou-se, com uma expresso sombria.  Se estou entendendo bem, voc pretende... partir?
Ela o encarou, com ar de desafio.
	Voc queria que eu me tornasse uma pessoa adulta e independente, no  mesmo? Pois bem, sr. Blake Campbell, seu desejo se realizou. J no sou a garota trapalhona que voc desposou, sem amor, apenas para proteg-la dos perigos do mundo. Agradeo sua generosidade e sacrifcio, mas agora chegou o momento de assumir minha prpria vida, de tornar-me senhora do meu destino.
Blake estava perplexo.
	Voc possui o incrvel dom de me surpreender, sempre  ele comentou, com voz trmula.  Alis,  isso o que voc mais tem feito, nos ltimos tempos.
A fisionomia de Cassie suavizou-se.
	Venho lhe dando muito trabalho, no  mesmo?
	No foi isso que eu quis dizer.
	Oh, no importa.  Ela fez um gesto vago. Estava linda, num vestido de algodo, estampado com motivos florais. Parecia mais jovem, mais... menina. J em nada lembrava a executiva que cativara o respeito e o carinho de todos os colegas de trabalho.  O que realmente conta, Blake,  que daqui por diante voc poder ficar tranquilo, a meu respeito.
Ele franziu o cenho. Afrouxou a gravata, com gestos nervosos, tirou o palet e jogou-o sobre o sof. Em seguida abriu os primeiros botes da camisa, impecavelmente branca, que usava. E quando encarou Cassie novamente, seus olhos traduziam um misto de ansiedade e confuso.
	Voc fala como se estivesse se despedindo...
	E  exatamente isto que pretendo, Blake  ela afirmou, num tom inesperadamente doce. - Estou lhe dizendo adeus.
	O qu?  ele indagou, num tom abafado.  Cassie, voc enlouqueceu?
Ela sorriu, mas seus olhos denotavam uma profunda tristeza.
	No, meu querido. Encontro-me em meu juzo perfeito. Alis, acho que nunca estive to certa do que devo fazer, como neste exato momento.
	Mas para onde voc vai? E por qu? E quanto aos exames, na universidade? E quanto a seu trabalho, na Warrington Construction?
	Calma. Faa uma pergunta de cada vez, sim?
Blake fitou-a,  atnito.  Naquele momento,  era Cassie quem parecia madura, enquanto ele se sentia como um adolescente prestes a perder a primeira namorada.
	Se eu no chegasse a tempo, voc teria partido sem sequer se despedir  ele concluiu, com amargura.
	Oh, no. Eu jamais faria isso. Tinha inteno de esper-lo, para que eu pudesse explicar...
	Mas explicar o qu?  Blake a interrompeu, exasperado.
	Achei que devia inform-lo sobre minha deciso.
Ele escondeu o rosto entre as mos. E, quando o ergueu, parecia transtornado pela angstia:
	Por que resolveu partir, justo agora, que tudo est to bem entre ns?
	A nica coisa que est realmente bem, Blake,  nosso entrosamento no trabalho.
	E voc acha que isso  pouco?  ele contraps,  beira do desespero.
	Eu seria muito estpida, se desprezasse esse fato. Alis, devo agradec-lo, por ter me deixado ocupar o cargo de Dorothy, na empresa. Foi muito importante para mim, sabe?
	Para todos ns, Cassie.
	Mas quanto ao resto...  ela comeou a dizer. De sbito, porm, a voz lhe faltou.
	Fale  ele pediu.
Cassie fechou os olhos por um instante, tentando arranjar energias para enfrentar aquele momento difcil. Por fim, conseguiu:
	Quanto ao resto, Blake, nada mudou. Continuo sendo a garota...
	Mulher  ele a corrigiu.
E Cassie pensou, com tristeza, no quanto isso teria sido importante, para ela, h bem pouco tempo atrs. S ento prosseguiu:
	Continuo sendo a Cassie de sempre, a mesma que praticamente o obrigou a casar-se, para evitar uma catstrofe emocional e, talvez, financeira. Agora compreendo, mais do que nunca, que eu no tinha esse direito.
	Cassie, as coisas j no so como antes  ele sentenciou.
	Realmente, no  ela concordou, com tristeza.  Pois eu mudei, Blake. Compreendi que nada no mundo pode obrigar uma pessoa a amar algum... Nada mesmo.
	Por que est dizendo isso?
Cassie sentiu a ameaa das lgrimas. E lutou para control-las. O momento da verdade havia chegado, E ela no podia fraquejar... no agora. Depois, teria a vida inteira para chorar por seu amor no correspondido.
	Responderei sua pergunta com uma confisso, Blake.
 E, tomando flego, revelou seu segredo.  Lembra-se daquela tarde de quarta-feira, quando entrei em seu escritrio anunciando que pretendia me entregar ao primeiro homem que aparecesse?
	E como poderia me esquecer, Cassie?  ele retrucou, com um profundo suspiro.
	Pois eu estava mentindo.
	O qu?
	Fiz toda aquela encenao, apenas para chocar voc.
	Mas por qu?
	Porque era o nico jeito de fazer voc reparar em mim... Queria chamar sua ateno para um fato muito simples.
	Qual?
	O de que eu havia me tornado uma mulher. Que j no era mais uma garotinha, a irmzinha caula que voc tanto estimava e protegia.  Ela fez uma pausa.  Depois, quando voc me props casamento, pensei em recusar, pois no queria sua piedade. Mas da ocorreu-me que talvez, com nossa convivncia, eu conseguisse conquistar seu corao. Agora vejo o quanto estava enganada  Cassie concluiu,  beira do choro.  E intil tentar obrigar uma pessoa a nos amar. Pois esse sentimento s pode nascer de modo espontneo... por algum passe de mgica, ou por uma dia-brura de Cupido, talvez. Mas nunca atravs de uma mentira, como a que lhe contei, naquela tarde.
"Pronto", Cassie pensou. Havia revelado tudo. Ento deu-se conta que no, que ainda faltava um ltimo segredo a ser exposto:
	Quando me ofereci para ocupar o lugar de Dorothy, na empresa, estava jogando minha ltima cartada. Achei que se lhe provasse que eu poderia ser eficiente, madura e capaz, voc talvez gostasse de mim... mais um pouquinho que fosse. Entretanto, isso tambm foi intil  Os olhos de Cassie estavam marejados de lgrimas. S que ela j no se importava.  E
agora, o que restou? Continuo ainda mais apaixonada do que antes. E voc, Blake, permanece to inatingvel, para mim, quanto as estrelas que neste momento brilham no cu desta cidade. Perdi  ela finalizou, num fio de voz.  Tenho de aceitar este fato terrvel, ou acabarei enlouquecendo de amor.
O silncio caiu entre ambos, como uma cortina densa e pesada. E Cassie foi a primeira a quebr-lo.
	Voc deve estar me odiando, no  mesmo?
	No  ele respondeu, baixinho. E ante o olhar surpreso de Cassie, declarou:  Ao contrrio: sinto-me aliviado. Jamais consegui enxerg-la como uma garota ftil, do tipo que se dispe, por puro capricho, a entregar-se sem amor, ao primeiro homem que aparecer. Nunca consegui v-la assim, Cassie. Por isso fiquei to desesperado, naquela tarde de quarta-feira.
	Suas palavras tambm me causam alvio, Blake. Mas, agora, isso quase j no importa.  Fitando-o no fundo dos olhos, ela murmurou:  Adeus... meu primeiro e nico amor.
	No!  ele exclamou, com voz abafada.  No me deixe, Cassie.
	Voc no precisa de mim, Blake.
	Eu a quero.
	Oh, j sei que, s vezes, me deseja. Mas, como voc mesmo disse, na noite de nosso casamento, a atrao fsica no  suficiente para sustentar a relao entre um homem e uma mulher...
	De fato, no.
	Ento... Adeus.
	Cassie...
	Por favor, no diga mais nada  ela pediu, num tom de splica.  Estou no limite de minha resistncia, Blake. S tenho energia para chamar um txi e...
	Mas eu amo voc, Cassie.
Ela voltou-se, certa de que seus ouvidos estavam lhe pregando uma pea.
	Eu amo voc  ele repetiu, aproximando-se.  E espero no ter descoberto isso muito tarde.
Atnita demais para reagir, ela apenas o fitava.
	Vim para casa, esta noite, para lhe dizer isso: que te amo, que quero honrar nosso casamento, torn-lo verdadeiro pela fora do nosso sentimento, e no pelo papel que assinamos, perante o juiz e a igreja. Por favor...  Ele tomou-lhe as mos entre as suas.  Diga-me que ainda h tempo, que as mgoas que lhe causei so menores do que nossa perspectiva de felicidade.  E acrescentou, baixinho:  Diga-me o que tanto preciso ouvir...
	O que quer eu fale, Blake? Que te amo? Pois esta  a pura verdade. Acho que sempre te amei. Voc era o Prncipe Encantado de meus sonhos de adolescente e, agora,  o nico homem que desejo, neste mundo.
	Oh, Cassie!
Blake tomou-a nos braos e beijou-a com sofreguido. Cassie correspondeu, com toda a fora da paixo que a incendiava. Era incrvel como o pesadelo de sua vida se transformava, em questo de minutos, num sonho dourado.
Os beijos se sucediam. J quase nada restava a dizer, seno doces promessas murmuradas ao ouvido.
Pouco a pouco, as carcias foram se tornando mais ousadas. E quando Blake ergueu Cassie nos braos, para conduzi-la  sute, no andar superior da casa, ela compreendeu que sim, que a vida agora se abria num caminho novo, num futuro pleno das mais ricas promessas de beleza e felicidade.
Na cama de casal de Blake, ele possuiu Cassie com toda a delicadeza e paixo.
	E a minha primeira vez  ela sussurrou, no momento em que se tornava mulher.
	 a minha primeira vez, tambm  ele segredou-lhe ao ouvido.  Pois jamais amei ningum como amo voc, Cassie.
Como resposta, ela o abraou com fora. E ambos pulsaram ao mesmo ritmo, como se fossem um s corpo, um s corao. O tempo deixou de existir. E o amor aconteceu, em sua total plenitude.
FIM
